38 – Tela azul

Depois de assistir a morte de meu clone, estou me sentido exausto. Exausto e estranho. Sei que Blinker estará me observando quando eu levantar os olhos da tela. Logo ele vai adivinhar o que quero fazer, como sempre. Por um momento, lembro da minha cama, meu quarto, minhas coisas... A essa altura, eles já assistiram ao vídeo e leram minha carta. Tudo o que tenho agora de meu está numa mochila sob meus pés, mas sinto vontade de desistir de tudo, voltar pra casa e, não sei o porquê, mas Blinker parece saber disso também. (Antônio)

“Você quer desistir e voltar? Posso conseguir isso...” (Blinker)

"Mesmo que eu quisesse, mas não posso... Tenho um compromisso com Sechat, você sabe bem. Não vou falhar com ela. Não posso e não quero fazer isso..." (Antônio)

Blinker continuava enigmático e perguntou: “Sim, mas e você sabe com quem ela tem compromissos? Não seria melhor você fazer o próprio caminho, ao invés de seguir os passos dela?” Antônio olhava para os lados, buscando a paisagem através das vidraças da van. O lugar era de uma frieza sem fim: a fileira de carros um ao lado do outro e as pessoas circulando como bonecos sem vida. Ele coçou os olhos, como para certificar-se de que não continuava mesmo em Morphopolis, de que aquele momento e aquela conversa fossem mesmo reais.

O problema é que alguém terá de pagar esse prejuízo, percebe?" (Blinker)

De que diabos você está falando, Blinker? “Prejuízo? Que prejuízo? De que diabos você está falando?” (Antônio)

“Eu sinto muito Noobie, você deveria ser mais cauteloso… Sechat é filha de um milionário, um alto executivo, acha mesmo que algo pode acontecer a ela?” Blinker estava sério, como se tivesse alternado de face e de um modo como Antônio nunca o tinha visto, nem nas fotografias da rede. “Agora que você ganhou seu desafio e parou a cidade inteira por quinze minutos, o tempo que ela precisava para tentar sabotar a companhia do pai, eu preciso levá-lo de volta até aos seus pais, que devem mesmo estar muito preocupados com você. Eles vão decidir o que será de você. Dela, eu venho cuidando há meses e tudo o que ela tem conseguido fazer foi porque o pai permitiu. E porque só o que eu faço, afinal de contas, é ajudar a acobertá-la.” Blinker pegou seu telefone e teclou algo ali sem tirar os olhos de Antônio. O chão começou a tremer, mas porque o motor da van foi ligado, e ela então começou a mover-se, saindo do lugar onde estava. Um motorista que ele não reparou de onde saíra tinha assumido o comando do veículo e, aos poucos, eles foram deixando o pátio. Sechat tentava conectá-los, mas a comunicação estava toda suspensa. Ela abriu a porta do escritório e foi até a janela do corredor, na tentativa de encontrá-los. A van saiu do pátio, levando os dois consigo dentro. Na tela dos computadores, Morphopolis estava completamente travada, vítima de um bug. O azul e a mensagem de erro estavam ali para não deixar nenhuma dúvida.


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