33 – Ir e voltar

Quando você crescer, Antônio, vai entender que tudo o que você mais levava a sério não era melhor que seus brinquedos de criança. Com todo o mundo acontece isso, mesmo que agora pareça que não, que pareça um absurdo eu ficar dizendo isso. Mas agora isso já está indo longe demais, não? Onde, afinal, isso vai acabar? Alguém pode me dizer? Você, Maria João, que é tão boa em saber tudo? (José Francisco)

“Onde isso vai acabar? Quando, meu Deus…?”, José Francisco perguntou murmurando, mas sem exatamente esperar por uma resposta das duas irmãs. Eles estavam quase chegando à padaria do pai de Adriano e, de onde estavam, podiam enxergar pessoas entrando e saindo pelo portão de ferro erguido até bem em cima, com as pontas de ferro retorcidas. Maria João buscava com os olhos atravessar os pedestres e ao mesmo tempo pegou a irmã pelo braço, como se buscando por alguém que se parecesse ao tal amigo do sobrinho. O pai relutava em entrar e ficou parado na porta, sem fazer menção de segui-las. Ao longe, o padeiro trabalhava no balcão sem notar a presença deles, atendendo a clientela. “Vocês vão. Eu vou ficar. Vou voltar pra casa”, ele disse.

Elas olhavam em sua direção, incrédulas. Parece que queriam dizer: “Como assim? Ele é seu filho! Não vai procurá-lo?” E ele parece que adivinhava isso: “Minha cabeça está doendo. Estou um trapo. Preciso deitar um pouco, só ficar deitado. Não posso ajudá-las nisso. Não assim, como esse farrapo. Preciso de pelo menos um banho…” e deu meia volta, enquanto elas pararam por um instante, observando-o, antes de entrar pelo portão da padaria, ainda em tempo de escutar com alguma nitidez suas últimas palavras.

“Qualquer coisa, me telefonem.” (José Francisco)

Por que elas acham que podem encontrar quem não quer ser encontrado? Quero lhes dizer que só há um modo de ver Antônio novamente. É ele voltando pra casa por conta própria. Mas de que adianta eu querer dizer se elas não querem ouvir? (José Francisco)

Ele subiu a escada de volta, passou pela porta do apartamento e, ao entrar, pensou ouvir uma voz familiar no ambiente, mas sem conseguir identificar de quem era ou de onde provinha. Procurou pela tevê na sala e ela estava lá, desligada e imóvel como um móvel qualquer. O rádio de Vitória, na cozinha, estava desligado também. Então percebeu que a voz vinha do quarto de Antônio, mas não era nem de longe a voz dele. Era a voz da mesma cantora mecatrônica do outro dia, cantando na tela do computador. Ele sentou-se na cama do filho e assistiu a tudo, até o final: a cantora e seu gesto dramático, o cenário de fantoches dentro de um castelo, a mão para o alto. Quando o filme enfim terminou, um link apareceu na tela junto a uma frase.

"Pai e mãe, cliquem aqui." (Antônio)


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