32 – Blecaute

Não é uma ótima hora pra faltar luz? Eu poderia também parar com isso e começar a viver uma vida. Uma vida de verdade. Mas antes eu preciso que ele saiba: que ele saiba tudo o que eu posso fazer sem ele. Então ele usaria o seu olhar piedoso que às vezes me causa tanto asco para ver o estrago que eu posso fazer no seu mundo perfeito. Abra essa porta agora e mande o lindo Noobie aqui pra dentro, Blinker! A hora já chegou. "Olhem pra cima, garotos!" (Sechat)

Sechat, ou seja lá quem vive sob esse nome (Mariana é o seu nome real; Mariana L. Schmidt), largou o computador e foi até a janela. Ficou olhando o horizonte por um instante, onde o rio estende-se e, abaixo dele, o estacionamento e as garagens do subsolo. Os geradores foram ativados e a luz piscou rapidamente, alternada pela mudança de corrente. Ela voltou ao computador deslizando em curva em torno da sinuosidade da mesa, como se dançasse e fizesse um solilóquio pronunciado pelo sintetizador de voz.

Pronto! Sim, já acabou. Não percebeu? Mas esperavam o quê? Uma aula? Um vídeo? Uma explosão? Mas quanta obviedade reduzir uma ação planejada a um jogo de cena qualquer... Você não viu porque não entendeu. É isso. Acostume-se com a ideia de não ver nem entender e ser obrigado a aceitar. (Sechat)

Em Morphopolis, é assim que tudo funciona. O que importa saber é que naqueles quinze minutos ou menos que sucederam o instante em que faltou energia elétrica em toda a cidade, exceto nos dispositivos móveis com energia própria, o Magrelo conseguiu finalmente o que queria: fazer funcionar uma chave avulsa para entrar onde ele supunha poder finalmente encontrar Antônio e sua localização exata e real. E, sim, claro, Antônio também conseguiu o que queria.

“Veja Blinker, Sechat achou alguém que não deveria estar aqui. Alguém que está me procurando”, Antônio avisou ao parceiro, isso tudo acontecendo dentro da cabine de passageiros da van onde ambos estavam: no interior do estacionamento da companhia de energia. Blinker alternou de tela e viu a cópia tosca e imperfeita de Antônio perambulando sem saber o que fazer, buscando uma porta para sair e silenciosamente sorriu.

“Você já não guardou tudo o que precisava, por que não vai lá falar com ele? Quem sabe dar uma lição nesse idiota?” (Blinker)

Antônio está olhando a figura tridimensional com o uso de um mecanismo de zoom. A tela do computador mostrava em detalhes a sua cabeça. O cabelo daquele clone está mais bem aparado até que o dele próprio. Sem levantar os olhos da tela, responde: “Na verdade, não. Vou dar a ele outro tipo de problema. Que tal a polícia perseguir a própria polícia? Ele não quer saber como eu me sinto? Ótimo, então…”

Nooobie, Noobie... É bom que você saiba o que está fazendo... Você me diverte mesmo, sabia? Vou botar um pouco de chuva no seu cenário, pra anoitecer mais rápido... E porque eu sei que você gosta... (Sechat)


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