30 – Maria, não!

É assim que ela me olha, com pena. É só como ela consegue, eu sei. Acho que ela tem em mente a imagem de quando éramos crianças e era eu a cuidá-la. Não faça isso, Maria. Cuidado com aquilo, Maria. Maria, não! Crianças, naquela época, eram tratadas assim e ela depois me perdoou até pelos meus excessos. No fundo, sabia que minha mão se movia pela mente de nossa mãe, como se num ato telecinético. Sinto o quanto deve doer em seus olhos me ver assim, implorando ajuda. Mas ela sabe resolver as coisas, enquanto eu... Eu só sei ficar apavorada... (Vitória)

Ainda de costas voltadas ao marido, enxugando as mãos em um pano de pratos, Vitória disse a ele: “Foi você quem pediu… Não se meta com a Maria, deixa que ela nos ajude e só!” José olhou em sua direção, mas logo desviou os olhos, ficando por um instante tamborilando os dedos sobre a mesa, sem fazer mais nada. Ela  virou-se e abriu uma portinhola que havia no armário suspenso sobre a pia. Pegou uma caixa de sapatos que colocou sobre a mesa e, de dentro da caixa, retirou duas pequenas caixas de remédios. Tirou uma cartela de comprimidos de uma das caixas e depositou o comprimido na palma da mão, sem chegar a colocá-lo na boca. Imóvel, observando o comprimido, parecia tentar identificar onde residia o seu poder de mantê-la silenciosa como um móvel da casa, engavetando sua angústia e também sua vontade de viver.

“Eu preciso viver sem isso…”, ela disse consigo mesma. Sentado em silêncio, olhando pata dentro da xícara, ele não esboçava reação alguma. “É a nossa vida que está expulsando nosso filho daqui”, de repente ela falou olhando o comprimido vermelho que nadava nas curvas da palma da mão. “Não posso viver com mais essa culpa nas costas.” Então devolveu o comprimido solto para dentro da caixa de sapatos e a tampou com as duas mãos, sob o olhar inexpressivo do marido.

“Não tem remédio que resolva isso.” (Vitória)

Ele procurava palavras que sequer estavam em sua boca ou mente quando a cunhada gritou da sala do apartamento: “Vocês vêm ou não vêm, afinal de contas?”


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