29 – Na ditadura

Como eu saberia que meu filho deixou de ser uma criança e passou a ser alguém que pensa por si próprio? Eu sempre só o vi brincando naquele computador, indo e voltando da escola e nada mais. Ainda ontem ele estava sob minhas pernas, com bonequinhos e brinquedos. Agora eu nem imagino onde esteja e fazendo o quê. (José Francisco)

“E o que será que eles querem? Uma revolução?” (José Francisco)

“Quem, José? Do que você está falando?”, Maria João perguntou ainda sentada à mesa. “Esse grupo… Antônio e os outros que estão com ele…”, ele disse. Maria João assistia a irmã lavando os pratos nos quais haviam acabado de comer e enfrentando também o restante da pilha de louça e se demorou antes de responder ao cunhado. Então ela levantou os olhos em sua direção e perguntou-lhe: “Mas no que você está pensando?” Ele estava aflito, mas não a ponto de deixá-la sem resposta e nem perto da aflição que tinha quando não sabia de nada e disse-lhe: “Eu acho que sim. Eu tinha pouco mais da sua idade quando entrei na luta.”

“Entrou no quê?”(Maria João)

“Na luta. Na ditadura...”(José Francisco)

 “Você se sentiria melhor se fosse por isso? Por alguma coisa? Isso não tem nada a ver com ditadura, José, acorda…  O Antônio está é fugindo…” Maria João continuou: “E torçam pra que não seja de vocês, mas desse magricelo aí.” Depois de dizer isso, ficou em pé e deixou a cozinha dentro de um silêncio sepulcral.


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