28 – A confiança

Eu nem preciso dizer tudo e ele me entende. Blinker é assim, sempre foi. Desde que comecei nos desafios avulsos de Morphopolis, nunca consegui pegá-lo desprevenido. Quando menos eu esperava, ele já estava atrás de mim ou bem ao meu lado. Eu ficava colecionando códigos, decorando segredos e ele simplesmente perambulava por tudo, como se fosse um dos construtores da cidade ou até mesmo seu administrador. Ele sempre aparecia do nada e parecia sempre saber o que eu tinha em mente. Pelo jeito, ele ainda sabe. (Antônio)

“Ela é muito bonita mesmo… E esse seu amigo? Ele também não gosta dela? Você confia nele?”, perguntou Blinker. Antônio estava mais pensativo que o habitual porque mesmo que já tivessem tido muitas conversas por mensagens, nunca haviam conversado assim: face a face. Ele normalmente faz tudo o que precisava sem pensar muito, mas agora estava diante de alguém que parecia ser como um irmão mais velho. Isso se ele soubesse como seria ter um irmão mais velho, mas era como ele imaginava. Era irresistível não contar tudo a ele. “Adriano? Confio nele, mas ele gosta dela sim. Você não acha que eles dariam uma boa dupla? Meio estranha, mas ainda assim uma boa dupla. Marcela parece somente mais uma dessas bobocas porque é bonita, mas ela não é.”

Blinker observava-o um tanto enigmaticamente e sorria; seu cabelo ondulado quase sempre tapando os olhos castanhos. Para Antônio, ele parece mesmo confiável e alguém muito raro e que tinha a capacidade de processar e resolver racionalemnte tudo o que era preciso. Pelo menos em Morphopolis era como ele agia. Olhando bem, bem que ele poderia ser um dos devoradores, não como os daqueles antigos pac man, mas como dizem ser os gerados por esses novos computadores quânticos e seus superprocessadores. Dali, daquela expressão de cofre, não deveria mesmo sair um ai para ninguém, Antônio pensava. “E depois, Noobie, o que você pensa em fazer?”, Blinker voltou a perguntar.

Às vezes tenho vontade de voltar pra casa, mas na verdade penso em continuar com Sechat. Ela me prometeu que eu poderia. Não entendo a razão, mas sei que ela gostou de mim. Enquanto isso, preciso encontrar um jeito de contar aos dois velhos que não voltarei tão cedo. Enquanto Sechat diz que sou um gênio, minha mãe pensa que sou uma criança esquisita e se preocupa comigo como se fosse ainda um bebê.. Mas eu sei o que vou fazer. Sabia antes de ir em busca de você.Inclusive eu já fiz um vídeo que vai explicar tudo a eles. Logo eles o assistirão. Eu fico com Sechat, é claro. É minha condição pra fazer isso.” (Antônio)

“Você confia mesmo nela, hein? Não se assustou com os olhos dela? Ou com sua aparência? Você sabia que a mãe dela morreu no parto e ela quase morreu sem ar ao nascer? Foi isso que lhe causou a paralisia cerebral. Ela foi criada por enfermeiras, babás e preceptores. Pelo que se sabe, ela quase nunca sai de casa, a não ser quando vai trabalhar na empresa do pai ou na van da empresa, onde há equipamentos de emergência caso ela precise...” (Blinker)

Em Sechat? E como não confiaria? Alguém como ela poderia por acaso mentir? “Essa coisa de aparência não faz mais sentido, Blinker... Todos os desenhos alternativos que ela fez da cidade, tudo... Que pode existir de mais perfeito que isso? E mesmo que eu não tivesse ideia nenhuma de como ela era, eu sabia, sempre soube, que ela não seria alguém comum... E quanto a confiar... Você não confia?” (Antônio)

“Às vezes não sei, meu caro amigo... Parece que em Morphopolis sempre há alguém manipulando as coisas, você não acha? Isso que vamos fazer pode até parecer heroico, mas eu já não confio mais é em ninguém. No fundo, às vezes eu também só penso em acordar em casa outra vez...”(Blinker)


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