27 – Lenga-lenga

Você, meu amigo, não imagina um hacker como eu. Uma hacker, na verdade. E ainda por cima uma que usa cadeira de rodas e fala através de um sintetizador de voz. Pois saiba você que um hacker é um estereótipo sem face. Ninguém nunca sabe como ele pode ser. Pode ser um executivo engravatado ou um aluno do ensino básico. Pode ser alguém muito bom em matemática ou em inglês. Deve ser alguém que sabe que para mudar o mundo de verdade é preciso mais do que belas palavras. (Sechat)

“O seu pai só virá pela tarde hoje, ele não disse?”, a secretária do pai perguntou a ela, na antessala de seu escritório. “Sim, ele disse. Mas eu quero lhe fazer uma surpresa. Tudo que eu preciso é de um tempo sozinha. Todos os que vêm para a reunião já chegaram?”, pergunta Sechat. “Sim, claro”, respondeu a moça uniformizada. “Ótimo, só deixe-os entrar em torno de uma hora, entendeu?”, ela disse com sua voz mecatrônica e foi entrando no escritório do pai para trabalhar, como fazia dia sim, dia não. Nos outros dias, ela estudava, fazia muitas sessões de fisioterapia e agora estava começando aprendendo a nadar sozinha com equipamentos de flutuação.

O escritório era amplo e envidraçado. Daquela altura, ela conseguia enxergar praticamente toda a estação de trem e boa parte do rio que circundava a cidade, principalmente sua área mais antiga e depauperada. Há uma mesa em formato de “S” e uma cadeira apenas, em uma das curvas da mesa-letra. É onde senta-se o seu pai. Foi em direção à outra curva para onde ela deslizou, com uma expressão exageradamente feliz para uma segunda-feira. Por um comando remoto em um teclado acoplado a sua cadeira, as vidraças mudaram de cor e a luminosidade do dia invadiu o escritório inteiro, apagando automaticamente a luz fotoelétrica.

Por meio do dispositivo que comanda apenas com a ponta dos dedos, ela ligou seu computador e fez check in em todas as rotinas habituais. Logo ela tinha Morphopolis diante dos olhos, ao mesmo tempo em que continuava em paralelo a projetar a expansão das linhas de distribuição elétrica da empresa do pai e a verificar o andamento das obras que esburacava a cidade inteira, desalojando pessoas de suas casas, nos bairros mais periféricos.

Em Morphopolis, ela costumava brincar de construção também. Lá, era preciso igualmente destrancar portas para que a cidade ganhasse vida, o comércio funcionasse, a vida passasse a existir e as ruas fossem lotadas de carros e os ambientes de pessoas, bastava o login voluntário das pessoas. Em pouco tempo, as cidades de todos estariam misturadas e cada um passaria a cuidar das suas atividades, fazendo ali coisas que, em outros tempos, precisavam ser feitas pessoalmente: diversão, comércio de todo o tipo e até mesmo trabalho real, como se uma grande uma camada agindo sobre toda a internet. Um pouco longe, em um dos muitos prédios, havia uma janela mostrando uma luz piscando sem parar: um sinal de alarme que avisava sobre portas abertas acidentalmente. Era o sinal que Blinker esperava que ela enviasse e que, bem como combinaram, ela realmente enviou.

 “Você pode trazer meu café agora e chamá-los para a reunião, Maria…” Claro que, assim como qualquer pessoa mundo, eu também preciso comer. (Sechat)


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