25 – Sutilmente exasperado

“Só um instante... Eu posso antes lavar as mãos?” (Adriano)

Ele ia me dizendo que precisava da minha cooperação. Com o velho me olhando da porta, ele fez algumas perguntas sem explicar direito a razão de tudo aquilo. Mostrou o distintivo, mas disse que apenas prestava serviços pra polícia técnica, que estava procurando Antônio e que ele poderia estar numa enrascada. Coisas de internet. Foi a mãe dele que lhe disse quem eu era e onde morava. O amigo de infância. O colega. Alguém que poderia ajudar a encontrar Antônio, enfim. Sua expressão está algo entre a prepotência e a fadiga. Vamos conversar, então... (Adriano)

Adriano é outro que não se mete em problemas e não cria problema para ninguém, isso o pai pode garantir. Desde que a mãe morreu, ele vem cuidando praticamente sozinho de si mesmo. Não descuida do que faz e o que faz sempre faz muito bem feito. “Já falei com o inspetor, ele esteve na escola. Já disse tudo que sei”, disse Adriano, sentando numa das mesas da padaria, num dos poucos lugares onde era possível enxergar a janela do quarto de Antônio, quase em frente, lá em cima, entreaberta. O Magrelo tentava ser o mais objetivo que conseguia.

“O inspetor morreu, foi assassinado num assalto, numa troca de tiros. Estou provisoriamente cuidando do caso, mas acho que tenho uma boa pista. Eu sou perito em tecnologia, não vou lhe interrogar, nem sei fazer isso. Não sei interpretar a mentira nem revelar a verdade, mas vejo o que há dentro de cada bit. É o que devo fazer agora para ajudá-los. É o que esperam que eu faça.” “Hã-ham?” “Seu pai vende analgésicos?” (Magrelo)

Adriano dirigiu-se até atrás do balcão, pegou um envelope de papel prateado e o trouxe de volta à mesa, com um copo de água numa das mãos. Ele ajustou os óculos sobre o nariz, ajeitou os cabelos aparentemente sempre revoltos e despenteados e voltou a sentar-se diante do visitante. Olhou rapidamente para cima, como de hábito, e viu o que parecia ser a silhueta do pai do amigo desaparecido, que logo em seguida desapareceu. “Você tem as chaves de Morphopolis? Foi isso o que ele enviou, ontem, na mensagem truncada, não foi?”

“Quê?” (Adriano)

“Eu preciso disso. É para o seu bem. E para o bem dele, também!”(Magrelo)

Nada mau para um aprendiz de policial, o Magrelo pensou consigo mesmo, antevendo a cooperação do seu interlocutor. Adriano então puxou do bolso das calças o seu telefone e o entregou em mãos para que ele o examinasse. Isso durou poucos minutos. Adriano permaneceu observando os movimentos dos dedos sobre a tela plana do cristal líquido do aparelho. Seu pai também ficou observando, de longe, mas logo assumiu o balcão da padaria: há muitos clientes que vêm bastante a essa hora. O que o Magrelo viu no telefone parecia ser o que estava procurando. Ao contrário dos modos e intenções das pessoas, isso pelo menos ele poderia avaliar.


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