24 – Fora/Dentro

Já vi isso em filmes, mas não sei... Isso não parece coisa que exista de verdade, não aqui no Brasil… É duro de acreditar nessa história e esse menino já percebeu que estou acreditando muito pouco nisso tudo, então ele fica me olhando com essa expressão piedosa como se eu fosse uma ignorante completa, uma camponesa. E quem disse a ele que eu preciso entender dessa lenga-lenga pra fazer o que devo fazer? (Maria João)

José Francisco também se aproximou deles para tentar acompanhar a explicação do investigador, não aguentou só ficar ouvindo de longe, sentado na cama do filho, isso apesar da cabeça dolorida. Quando o Magrelo pediu um analgésico, ele também ingeriu um comprimido. Depois que Vitória disse quem era e onde Adriano vivia, ele começou a resumir as explicações e foi dando um jeito de ir embora de uma vez. Antes que saísse, o pai ainda perguntou: “E o que você vai fazer, afinal? Vai trazer ele de volta?”

“Seu filho é um dos poucos que sabe que não está nisso por acaso, mas o importante agora é saber se ele é quem vai querer voltar. Eu preciso ir e, vejam bem, não se esqueçam de deixar esse computador ligado.” (Magrelo)

Pela janela, Vitória acompanhava o perito em informática esticando os olhos através das persianas e enxergou ele indo em direção à padaria do pai de Adriano, conforme ela indicara-lhe. Ela voltou-se para dentro de casa e o marido estava olhando para ela, com aqueles seus olhos parados. Maria João já não estava mais ali, mas logo surgiu pela porta do banheiro, indo direto para a cozinha.

“Venham cá, o que tem pra comer nessa casa? Eu preciso comer, e vocês, pelo jeito, ainda mais do que eu.” (Maria João)

Como eu imaginei... Nada de comer… Um feijão esquecido numa panela, uma caixa de leite pela metade, bananas muito maduras, batatas quase podres… Já não sei quem há mesmo pra ser salvo aqui. Talvez todos... “Vitória, pega aquela caixa que eu trouxe… Minha glicose está indo abaixo. Venham, sentem aqui…” (Maria João)

Vitória estava sentada, mas não esboçava ter força para muito mais do que isso. Com custo, lavou três pratos da pilha de louça acumulada para que pudessem comer o que havia dentro da da caixa que a irmã touxera. José Francisco relutou em sentar, dizendo que preferia ficar em pé e que sentia muita dor ainda, mas Maria João fez com que sentasse e colocou em seu prato um pedaço de queijo e um naco de pão que encontrou por ali, como se estivessem na mesa da sua cozinha antiga ou na casa da mãe delas e avó de Antônio, falecida há tanto tempo já.

Com os olhos ela vasculhava tudo em volta, como se conferindo o estado de tudo. Há quanto tempo mesmo eles não voltavam a estar assim? Tinha vontade de dizer alguma coisa para eles, coisas entaladas de outros tempos, especialmente para ele, mas não era hora disso. Num lampejo, ela já parecia saber o que fazer. Não foi por isso mesmo, afinal, que Vitória a chamara?

“Se depender desse daí, podem esquecer o filho de vocês. Vamos atrás desse amigo do Antônio, o tal Adriano.” (Maria João)


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