23 – E o almoço?

“Hoje cedo consegui localizar o sinal e a posição do telefone do filho de vocês.” Ok, o sinal vinha de Quito, no Equador, mas eu não preciso lhes dizer isso. É claro que o que ela quer saber é se ele está vivo e longe de perigo. Vivo, é certo que sim. Longe de perigo? Como vou saber? "Bem, eu captei seu sinal ontem à tarde, numa tentativa frustrada de conexão. Mas tenho certeza de que era ele, porque o acesso estava criptografado no modelo que ele mesmo criou.” Claro, pela expressão e fisionomia, é óbvio que eles não estão entendendo o que estou dizendo. Vamos lá, então. Do começo. (Magrelo)

Maria João insistia para que ele explicasse tudo, tintim por tintim. Ele então foi dizendo tudo o que sabia: que o inspetor achava que poderia ter sido um sequestro, que o inspetor nunca dera a mínima atenção para as suas hipóteses e de que o filho deles pudesse estar realmente envolvido num grupo de terrorismo digital.

Diante da explicação, a expressão de José Francisco tinha um misto de abandono e desconfiança, como quem estivesse dizendo de boca fechada: “Não, ele não pode ser um terrorista, quem disse isso? Nada disso, claro que não! Quanto absurdo!” O Magrelo continua explicando-lhes: diz que tudo acontece através de videogames inocentes como os que ele mesmo costuma jogar; ele mesmo já tinha procurado aproximar-se de muitos dos grupos existentes, mas muito rapidamente acabavam descobrindo sua ligação com a polícia e excluíam sua ID, quer dizer, seu código de autenticação; trata-se de uma tecnologia imune a fraudes; o sujeito que a inventou é um desses prodígios que logo serão milionários com ações na Nasdaq que lucra com royalties pagos pelas empresas de segurança de dados.

Tanto Vitória quanto o pai sabiam muito bem que o filho costuma jogar muito no computador, mas não se importavam muito com isso. Não mais que os outros pais de adolescentes. Além do mais, Antônio não era um filho que desse trabalho. Tirava boas notas no colégio, tinha amigos e parece que até uma namoradinha. A verdade, porém, é que andava calado demais nos últimos tempos e, ao mesmo tempo, aparentemente muito, muito feliz.

“Eu não sei com qual grupo ele se uniu, mas sei que fez isso e que não está sozinho. Torço para que sejam aqueles que querem apenas brincar e fazer competições, mas não poso dar certeza de nada", tentei lhes explicar, mas eles me escutavam como se estivesse falando em idioma estrangeiro. “Mas por quê? Com que objetivos?”, perguntou a mais nova delas, que parece ser sua tia. “É difícil dizer, mas ele sabe o que está fazendo, ele não está inocente nisso e, principalmente, não quer ser encontrado. Isso até pode ter começado como um jogo, uma brincadeira, mas lá pelas tantas há opções a fazer.” Enquanto elas se entreolhavam, incrédulas, pedi um copo de água e ganhei tempo até dar um jeito de encontrar o nome do destinatário de sua conexão. “E esse Adriano? Aqui está ele, esperem um pouco... Conhecem algum Adriano?” A mãe respondeu que Adriano é o nome de seu melhor amigo. São amigos desde a infância e estudam na mesma escola. Ele mora do outro lado da rua, no segundo andar da padaria. Bom, nesse caso eu preciso saber o quanto esse Adriano sabe a respeito do que está acontecendo. A mãe vai até a janela e aponta a padaria quase defronte ao prédio, dizendo “Olha! É lá. Ele é o filho do padeiro.” (Magrelo)

Desde a manhã, o Magrelo vem sentindo a cabeça latejar como se fosse explodir a qualquer momento. Indo dormir pela madrugada e tendo sido acordado pela notícia da morte do inspetor, ele não chegou a dormir mais que três horas. Sua vontade é desabar como parece ser o que também quer fazer José Francisco, mas agora não será o sono que irá fazê-lo parar.

“Alguém tem um analgésico?” Eu preciso sair daqui. E rápido. (Magrelo)


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