22 – Para o seu bem

Na minha vida tenho aprendido muitas coisas que não servem pra nada. A vida inteira tem sido assim. Sinto muitas vezes que sou vítima de um engano. Isso é sobre meu pai e minha mãe. Às vezes, parece que os dois são crianças que esperam que eu cresça de uma vez e possa vir a cuidá-los de uma vida da qual já não parecem esperar muito. É como uma condenação precoce e eu decidi que não vou mais viver nisso. Preciso ver além do que a tela do computador pode me mostrar e isso não significa adentrar em seus códigos, mas superá-los. Por isso embarquei com Blinker em direção a Sechat. Por isso não pensei duas vezes em chegar até aqui. (Antônio)

“Quanto falta?”, pergunto a Blinker, que está sentado a minha frente, apesar de que em Morphopolis ele esteja caminhando bem ao meu lado. “Quase nada. Agora ela vai abrir o aplicativo e nós entramos”, ele respondeu. (Antônio)

Bem como ele disse, ali estava o cenário. Era uma cidade perfeita funcionando nos mínimos detalhes: prédios, bancos, hospitais, escolas, cemitérios… A cidade ainda estava sendo montada e quase ainda não havia vida, exceto árvores e animais de estimação. Era preciso que eles passassem despercebidos entre os demais, como códigos naturais, e então pudessem ver o que havia mais para dentro, além da proteção instalada e das portas. No entanto, como se tratava de uma simulação e Sechat era quem estava dirigindo a cena, antes que eles entendam como ela irá encontrar todos os participantes, não há dúvidas sobre isso. Na verdade, ela já encontrou, mas ainda assim deixou que todos ocupassem seus lugares – inclusive os usuários remotos de verdade – e cumprissem todos os passos combinados. Só que, depois, quando não for mais uma simulação, ela não estará lá para salvar ninguém.

“Ei Noobie, você já copiou as chaves?”, Blinker perguntou como se lembrasse subitamente de conferir. “Parece que você esqueceu que eu só estou aqui porque não preciso copiar nada…”, ele respondeu. “Ah, ok. Vamos então”, prosseguiu Blinker em meio a um longo suspiro.

Antônio demorou-se ainda um pouco observando o lugar, registrando os detalhes modificados e viu todos sumirem de repente, como se sugados da realidade paralela do jogo para um local indefinido, como uma espécie de vazio. Por fim, ele moveu-se no cenário e lacrou totalmente a cidade, deixando-a como sempre estivera, sem qualquer vestígio de que algo de anormal pudesse ter acontecido ali. Enquanto isso, no escritório do pai, na concessionária de energia elétrica estadual e usando o computador pessoal dele, Sechat sorria sozinha porque finalmente encontrara alguém capaz de vencer o limite da memória artificial e porque esse alguém era Noobie e porque Noobie não tinha medo dela e porque sabia que ele estaria sorrindo também e pela mesma razão que ela e porque, embora ela não pudesse vê-lo, ele estava mesmo.


Volta ao capítulo anterior
Vai para o sumário
Vai para o próximo capítulo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s