20 – Táxi, táxi!!

Como acontecem os problemas das pessoas? Quem é que sabe? Um dia você sai de casa e a rua não está mais lá, não há mais aonde ir porque os lugares existem apenas quando se está dentro deles. É preciso colocar um pé sobre ele ou apontá-lo com o dedo. Antes disso, todos os lugares são apenas abstrações tão remotas quanto a existência de Netuno ou galáxias desconhecidas. Problemas são assim também: são como lugares impondo-se uns adiante dos outros. Não é preciso ter feito nada para que eles se coloquem diante do nariz. Basta estar vivo e existir.

Eu só passei a pensar que a morte existe por causa do medo. Acho que é assim com todo o mundo. A gente vai vivendo com a onipotência dos semideuses até que ela vem e lanha a face da gente. Agora eu já não tenho medo da minha morte e sabendo que Antônio está vivo, ainda que noutro lugar, posso até mesmo desmaiar. Pensando bem, estou tão cansado que isso afinal é o que eu preciso mesmo... (José Francisco)

O filho sumido, o marido desmaiado e a campainha tocando. Vitória gostaria de sentar em qualquer lugar e chorar, mas não pode: a irmã não deixaria. Então ela desceu a escada para abrir a porta. Era a polícia, mais uma vez. Dessa vez o rapaz alto de óculos estava sozinho, mas foi a ele mesmo a quem ela acabou suplicando por ajuda. Enquanto ele subiu as escadas praticamente correndo, ela ainda observou por um instante o movimento na rua: o movimento dos caminhões e dos pedreiros da construção em frente ao prédio havia felizmente cessado um instante para o horário do almoço. Os homens em sua maioria estavam encostados na sombra da marquise quase ao lado da padaria, mas seria só por um momento, logo deveriam voltar ao trabalho ensurdecedor na construção. O calor chegou com tudo. Na verdade, novembro é que está chegando.

“Acho que bateu a cabeça… Não será melhor levá-lo a um hospital?”, Maria João tem a cabeça de José Francisco no colo e faz a pergunta ao rapazote, o Magrelo, que está teclando seu telefone. Aos poucos, José vai abrindo os olhos. Vitória está em pé, bem a sua frente. Ele enxerga os três, mas ainda não tem certeza de que deveria estar mesmo ali ou desmaiado ainda, ou até mesmo morto. Sua cabeça parecia como um sino sem badalo, pendulando-se. Mas ao ver o Magrelo, quis saber do filho e levantou-se, escorando nas paredes, porque Maria João já se afastara dele.

“Venham comigo, eu preciso contar o que descobri.” Onde está?! Onde está? Por isso que odeio telefones. O-dei-o! Tenho certeza que está aqui. Ah! Aqui! “Pode abrir a janela, para entrar mais luz?” (Magrelo)


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