19 – Uma visão da cidade

Tudo é sempre difícil com Vitória. Mas, coitada... Não gosto de pensar assim, mas sinto pena. E piedade é um sentimento ruim e que não ajuda ninguém, é o que dizem, mas eu não consigo evitar. Acho que é outra coisa bem diferente o que sinto, na verdade. Vitória confia em mim cegamente e vive mais sozinha do que eu, que sou sozinha de verdade. Aquele homem é que a mantém como uma ilha. Aquele pobre diabo. (Maria João)

“Olha, Vitória, já estamos chegando”, a irmã disse-lhe sem olhá-la nos olhos. Estava agarrada no banco do carro que o taxista dirigia alucinadamente. “Vire ali, moço, no posto de gasolina. É o segundo prédio. Pode nos deixar bem na frente?”, Maria João mostra onde é que moravam e depois deu de ombros. Mas, como sempre, não conseguiu ficar calada por muito tempo.

“E o almoço?” (Maria João)

Como deixar de pensar no almoço? Ela parece estar perguntando a si mesma. Já Vitória não tinha exatamente o aspecto de quem se alimentava direito há alguns meses ou anos e, mesmo assim, não estava nem muito gorda nem muito magra. Elas desceram do carro e o taxista sequer fez menção de ajudá-las com a bagagem, apenas abriu o porta-malas enquanto examinava os arredores do lugar por detrás dos seus óculos escuros. Muito rapidamente, Maria João já tinha descido com a própria maleta e uma pequena caixa na qual trazia um pedaço de queijo e doce de figo feito por ela mesma e pela menina Alice, sua pequena vizinha e aluna. Elas o tinham feito no último verão, sob o olhar desinteressado da multidão de gatos que transitavam em seu pátio. O doce era o preferido de Vitória e por ali certamente não havia figos como aqueles. Lá em cima, José Francisco procurava levantar-se do tombo, mas ainda não abrira nem os olhos direito. Em último caso, aí está o almoço, Maria João pensou, mas quieta desta vez.

“Vamos, vamos subindo”, ela disse para a irmã mais velha. “Você conferiu o troco? Por aquela direção que ele tomou, nós merecíamos um desconto”, continuou. Depois de algum esforço, Vitória conseguiu finalmente abrir a porta. A porta estava com a mola quebrada e por isso parecia pesar o dobro do peso real. Elas entraram e começaram a subir a escada. Maria João subiu pensando no que iriam comer e também sobre o que teriam mais cedo ou mais tarde de conversar. Ela foi alternando os pés nos degraus e pensando como seria bom se tudo fosse como aqueles filmes de ação nos quais ninguém comia nada, alguém sempre era o herói ou heroína para resolver todos os problemas e as pessoas nunca usavam o banheiro. “Nossa, não sei como aguentei tanto… Minha bexiga está estourando…”, pensou alto.


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