17 – Branquidão

Quem me acordou mesmo foi o som da porta se fechando, mas acho que antes disso eu já estava pressentindo seu movimento e passos apressados. Silenciosa como sempre, ela deve ter saído antes de clarear o dia. Todos os dias ela acorda assim. Vitória não descansa nunca. Ou melhor, descansa não descansando, ocupando-se de modo a não parar e pensar. Por exemplo, ela não lê jornais, empilha-os e dá destino àquele monte de notícias velhas como os verdadeiros trastes que elas são. O tempo é como seu próprio sangue, apenas flui sem incidir diretamente nela. (José Francisco)

José Francisco não percebeu, mas, como sempre acontecia, acabou dormindo no sofá. Desta vez, diferente, a tevê estava desligada. Parecem aqueles dias de verão quando os jogadores dos times brasileiros já entraram em férias e no resto do mundo não há nenhum torneio iniciando. Dias de vácuo nos quais ele às vezes levava a família a uma pequena colônia de férias no litoral. A praia lá é também sempre igual. Há alguns anos, eles viveram um susto muito grande quando Antônio foi resgatado do mar por um homem de meia idade, salva-vidas aposentado que se jogou no mar para salvar o seu filho enquanto ele gritava da borda de areia da praia sem pisar na água. José nunca aprendeu a nadar; ele é duro como as pedras do lugar onde nasceu e suas grutas e minas.

Com as mãos nos joelhos, ele procurava localizar a fonte do som do telefone tocando. Depois que os telefones começaram a se mover pela casa, livres do fio todo enrolado, eles podem estar em qualquer lugar. Talvez estivesse na prateleira de livros, mas ele foi encontrá-lo no quarto do filho. Ao entrar, um odor tóxico de algum produto de limpeza fechou suas narinas e o intoxicou imediatamente, deixando-o um pouco tonto. Depois de procurar um pouco, localizou o telefone em meio a livros e materiais escolares, mas, antes de atendê-lo, precisou tentar abrir a janela emperrada do quarto. “Merda”, disse. E desistiu, atendendo ao telefone mesmo assim.

“Alô?” “Quem?” “Ah, sim… Claro, lembro sim.” “Como?” “Morto?” “Como?” “Onde?” “Sim.” “Espero, sim.” “Hã-ham.” “Quê?” “Certo, eu ligo. Sim, deixo ligado.” “Contas de telefone? Vou procurar…” “Sim, não vou sair, vou ficar aqui.” “Que horas são???” “Merda!” (José Francisco)

José estava saindo do quarto e não reparou no skate do filho que tinha resvalado pelo chão do corredor. Quer dizer, foi a última coisa que ele viu até cair de corpo inteiro no chão e até que elas voltassem para casa e encontrassem-no desmaiado como um objeto sem serventia é esquecido ou abandonado em qualquer lugar, sem qualquer para estar ali.


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