16 – Hã-ham

Os piores ambientes do mundo são os hospitais de pronto-socorro e sua falsa impressão de segurança. Nem as prisões imundas podem com o horror branco desses corredores. O silêncio e o medo calando as bocas impede o grito real que nasce do que deve ser a garganta do desespero. Um desespero de muitas bocas, de vidas que não querem partir, entregues à fadiga, sob os cuidados exclusivos da sorte e das equipes médicas. Algumas das pessoas que entram vêm chegando sobre macas; outras, nos braços umas das outras. O tempo pode estar tanto a serviço da cura quanto do fim. Tudo depende do que consta no prontuário.

O horror dos horrores foi terem feito com que eu entrasse na sala e encontrasse, além dele, muitos outros corpos aguardando por identificação. Logo ele, que deve ter colocado naquela mesma situação pelo menos uma dúzia de pessoas. Mas lá estava, coberto por um lençol branco, apenas com o rosto de fora. Se eles soubessem que eu mal posso com um corte no dedo, ainda assim teriam chamado a mim? Mas por que eu, afinal de contas, e não a sua família? A resposta é simples: o meu número é que constava nas últimas dez ligações do telefone dele e não há notícia de que tivesse família, pelo menos não nessa cidade. Claro, precisava ser comigo, como não pensei nisso antes? Eu preciso mesmo passar por isso pra trabalhar onde trabalho. Quando é que vou aprender? (Magrelo)

“Onde fica a saída? Preciso dar um telefonema. Posso usar o telefone aqui dentro?” perguntei a uma enfermeira que, como uma árabe, estava tapada de branco até os olhos com os quais me aponta uma porta automática por meio da qual se enxergava a silhueta de algumas pessoas. Eu sigo por aquele caminho e, quanto mais me aproximo, vou percebendo que são pessoas que estão rindo, quase até a contorcer o corpo sobre si mesmas. Abro a porta e elas continuam gargalhando; sequer olham pra mim. Não entendo o que estou vendo e continuo andando. Estou procurando um lugar aberto, onde possa respirar sem o cheiro insuportável de cloro. Depois de passar por alguns lugares lotados de gente, chego a um saguão que vai até a rua e encontro um banco onde sentar. Onde está o telefone do pai do menino? Não posso deixá-lo lá, esperando por mim. (Magrelo)

“Alô? É o seu José, pai do Antônio?” Nossa, mas que modo de perguntar é esse meu? Assim, vou matar o homem do coração. “Sou eu, o policial, o técnico dos computadores.” “O senhor já sabe? Pois então, o inspetor Everaldo foi assassinado.” “Um tiro nas costas”. “Acham que é vingança, não sabem ainda.” “Preciso que o senhor me ajude, certo?” “Até designarem outro, eu vou tomar conta do caso.” “Acho que já descobri muitas coisas, logo mais eu vou até aí.” “Preciso que deixe ligado o computador do Antônio e que encontre suas contas de telefone, pode ser?” “Desculpe a demora. Deveria estar aí de manhã cedo e já é praticamente meio-dia.” “Alô?” “Alô?” “Merda de ligação.” (Magrelo)

Antes de morrer, o inspetor apenas chamava o técnico de Magrelo. Não ao vivo; só em pensamento, claro. O Magrelo isso, o Magrelo aquilo. Seu nome mesmo era Thiago, Thiago com “TH”. Na verdade, o inspetor detestava depender de alguém de fora da polícia. Alguém que não sujasse as mãos, que apenas ficava “brincando” de investigar, metido nas entranhas dos computadores, como se fosse um médico das máquinas. O Magrelo, antes um mero coadjuvante, estava aparentemente agora assumindo a dianteira da investigação e era o único na polícia que conhecia todos os fatos. O problema dele é que, longe dos telefones e computadores, poucos entendiam o que ele conseguia dizer, o que é ainda pior para quem não sabe lhufas do pouco que ele diz.


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