15 – Decifra-me

A minha voz eu não perdi de uma só vez. Ela foi sumindo como se a minha boca se entupisse aos poucos de uma sede infinita. Minha mãe dizia que era porque eu gritava muito, quando criança. Besteira! A voz falhou porque dentro da minha garganta os músculos que fazem vibrar as cordas vocais um dia amanheceram emaranhados para sempre. “Pense num gato brincando com um novelo de lã. Foi desse jeito.” O que mais me deixa satisfeita é que ele não tenha medo de mim. O mais comum é que as pessoas se afastem por medo e, sobretudo, por não entender o que há comigo. Às vezes não consigo fechar completamente a boca e esses novos remédios às vezes me fazem babar como criança, mas para isso eu não quero ajuda ou compaixão. “Você sabe, Noobie, se não fosse você, nada disso aconteceria. Foram dois anos tentando encontrar quem completasse em vão a sequência. Todos queriam que eu desistisse, mas eu sabia que deveria existir alguém capaz de decorar as chaves.”(Sechat)

Há tempos Antônio cada vez menos consegue pensar em seus pais ou nas suas conversas com eles. Ele está muito decidido a continuar assim, pensando apenas em si próprio e por si próprio. Para ele, é o desafio dos desafios. Além disso, nada poderia comparar-se àquilo. Ele estaria finalmente em ação e, mais incrível, com Sechat em pessoa lhe dando cobertura. Seria tudo muito simples, como uma sequência repetitiva e inevitável de um videogame qualquer. Apenas ele não tinha a exata consciência de que depois disso sua vida poderia nunca mais ser a mesma. Na escola, talvez somente Marcela e Adriano pudessem entender a razão dele estar fazendo aquilo; os outros pensariam que enlouqueceu ou que tivesse sido raptado. Normal ele mesmo nunca se esforçou por parecer. E não é que não se preocupasse com a mãe, mas, também, se decidisse deixar tudo como antes, a vida continuaria naquele perpétuo arrastar de correntes. E ele sabia que a mãe teria sempre a ajuda da irmã mais nova, que sempre tivera a cabeça no lugar e apareceria mais cedo ou mais tarde, tinha certeza disso. No entanto não era hora de pensar nisso. Sechat em pessoa tinha lhe confiado a guarda das chaves e ele somente precisava fazer o que era sua especialidade: não esquecer de nada.

Não sei quando foi que a van apagou o motor. Tinha sensação de que era noite ainda, na rua, porque os vidros opacos não deixavam que percebêssemos muito do exterior. Blinker vai a minha frente e vai me chamando na tela, para que eu não perca sua trilha. Sua parte inclui deixar vestígios que os outros vão limpando como se fosse apenas uma tarefa de rotina. Nosso comportamento é absolutamente normal. Ninguém nunca suspeita de garotos com cara de tristes, redes sociais, games e muito menos os softwares de segurança que estou transportando. (Antônio)


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