14 – Zoom

Só o que eu ouvi foi um estampido. O som seco e opaco. Todos correram imediatamente pra janela e eu também. Lá embaixo estava o mesmo policial que há pouco me dera seu cartão amarelado, reconheci pela roupa, agora dentro de uma poça de sangue. A gritaria foi enorme e justamente na hora em que a sirene liberava pra rua todas as turmas. O Afonsinho não conseguiu segurar os mais curiosos, por mais que tentasse ele mesmo fechar as portas de correr que limitavam a escola. Eu não fui. Não gosto dessas cenas e logo a polícia chegou e também uma ambulância. Então foi que desci, quando os carros já se amontoavam e os motoristas começavam a soar a trilha sonora da sua impaciência no som das buzinas. O Afonsinho não saía da frente da porta e só deixou os maiores passar por ali. Os demais deveriam sair pelo portão dos fundos, acompanhados dos pais ou um responsável. Quando passei junto com outros, ouvi alguém dizendo de longe: “Foi um assalto, um horror, parece que já saiu morto daqui.” (Adriano)

As coisas costumam acontecer porque é seu destino, mas às vezes é só acaso mesmo. A morte do inspetor, por exemplo. Um horror. Todo mundo diz isso: um verdadeiro horror… Mas “horror” por quê?

Ninguém viu ou percebeu quando o suspeito chegou e sentou-se no banco ao lado do velho eucalipto, na praça, e ficou horas a fio digitando no seu telefone, aparentemente absorto no que fazia. Nem muito menos alguém sabe de onde ele veio ou onde estava antes. Onde ele estava? Ninguém imagina que essa criatura cumpre uma rotina diária. Sua jornada de trabalho dura o dia inteiro e custa peregrinar lugares e espreitar vítimas ocasionais. É como uma fera solta, um bicho solto. Seu chefe é um gorducho que só sai de casa para ir ao estádio de futebol, mas que jurou sua vida se ele não recuperasse a encomenda perdida. “Vai, vai, vai!” é o que ele sempre diz para todo mundo.

O suspeito também se chama José, o mesmo do pai de Antônio. Só que ele é José Ariovaldo e o outro é José Francisco. Ele é este menino que matou o inspetor não para roubar, mais provável que por raiva ou vingança. Armado desde os oito anos de idade, é seco como um palito. De olhar, não se imagina a força que ele tem nos braços. E a raiva. Pois José esperava somente roubar um par de tênis de um aluno abestado da escola, ou um telefone pelo menos, neste fim de manhã. Entretanto o acaso colocou o inspetor Everaldo no seu caminho e ele, assim como Antônio, também é dono de uma memória prodigiosa. Foi bater o olho no sujeito e lembrar a cara amarrotada e amarelada do policial. Então levantou-se do banco e foi caminhando lentamente em direção ao carro do inspetor, buscando debaixo da camisa larga o cabo da pistola 357. O homem estava parado e de costas para a rua. José apenas precisou apertar uma vez o gatilho. Depois foi só ganhar a rua.

Ainda procuro Marcela, mas acho que ela saiu pelos fundos com as amigas. Mas e quem vai investigar o sumiço do Antônio agora? No caminho, finalmente eu a encontrei, mas não exatamente como eu queria. Ela está sentada ao lado do pai, dentro do carro dele. Eles estão parados no sinal. Ela parece enxugar os olhos e o pai parece que está lhe dizendo alguma coisa inaudível para mim, que estou no outro lado da avenida e só consigo ver sua boca movendo-se. Ela me enxerga e fica me olhando inexpressivamente, até que consegue acenar timidamente, mal mostrando a mão através do vidro da porta do carona. Eu também fico paralisado. Na verdade, sempre fico. Seu pai me olha também e, quando parece me perceber, um caminhão atrás do seu carro dá aquela imensa buzinada com som de trombone e eles seguem adiante. Penso em lhe escrever alguma coisa pelo telefone e então percebo a chamada perdida de Antônio, mas é uma mensagem que não foi entregue, só notificada. Ele já havia me ensinado como recuperar esse tipo de mensagem perdida, mas infelizmente a minha memória não é tão boa quanto a dele, então isso vai me dar algum trabalho ainda, aliás, dar trabalho tem sido mesmo a especialidade dele. (Adriano)


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