13 – Pó de pedra

Ainda sou como era quando criança: o enjoo não me deixa nem pensar. O calor e o bafo do lado de fora são insuportáveis, mas preciso ficar olhando o mais longe possível e esquecer que tenho um estômago. Como essas pessoas conseguem viajar com crianças? Ainda faltam pelo menos três horas até Santa Maria e depois então mais uma hora e meia, mas isso parece não ter fim. Preciso de um remédio. Um daqueles como os que Vitória toma e que derrubam a gente. Será que se consegue uma farmácia na espelunca dessa rodoviária de fim de mundo? Um Sonrisal, que seja? (Maria João)

A estrada poeirenta cobria tudo de um pó avermelhado e o dia estava insuportável de tão quente. As poltronas com cheiro de coisa velha e cor desbotada denunciavam os muitos anos de idade do ônibus. Lá atrás ficara a cidadezinha, que foi sumindo, sumindo e de repente desapareceu em definitivo atrás de uma curva qualquer da estrada. Aquelas pessoas estão por lá há tanto tempo que são como suas pedras, suas calçadas, seu calçamento. Porque tantas se foram embora em busca de uma vida melhor, o lugar às vezes lembra uma ruína. Seus habitantes renovam os dias como se fossem logo acabar e vivem-nos um após o outro, de sol a sol. Maria João gostava da cidade não pelas qualidades do lugar, mas porque nunca viu motivo em buscar outra vida longe dali. Além do mais, tinha lá seus livros, suas roseiras e o pequeno pátio no fundo da casa onde cuidava dos gatos vadios de toda a vizinhança.

Um dia, há muito tempo, aconteceu que alguém teve a infeliz ideia de envenenar os bichanos e o desplante de deixar uma carta por baixo da porta. A pessoa dizia que a noite deveria ser de total silêncio e que os gatos estavam acabando com a noite de sono de todos que moravam no lugar, tal a quantidade de animais que se agrupavam nos arredores da casa, brigando, acasalando-se, incomodando a todos. Foram mais de trinta gatos envenenados todos de uma vez e, ao amanhecer, ela viu que estavam todos os sobreviventes em seu pátio, sob uma árvore, e olhavam para a porta como se esperando uma atitude sua. Ela chamou um conhecido que fazia transportes num caminhão quase sucata e então carregou os gatos, um por um, e os levou à capital, em busca de ajuda veterinária. Ao fim do caminho, nenhum sobrevivera. Tinha sido a última vez que saíra dali. Agora ela deixava a cidadezinha para trás, um amor não correspondido que ainda estaria lá em sua volta, seus livros, a menina Alice, novos gatos (eles nunca paravam de chegar) e a casa cercada de rosas vermelhas, partindo para a capital a fim de amparar o desconsolo da irmã com mais dúvidas que certezas em mente.

O Antônio bem que podia ter telefonado… Mas se ele se foi mesmo, quem vai culpá-lo? Aqueles destrambelhados não poderiam nunca ter posto um filho no mundo. A Vitória, coitada, não pode nem consigo mesmo. Por que não veio morar comigo, quando ofereci e deixou pra lá aquele traste? Agora deve estar pensando o pior de tudo, passando os piores momentos da vida. E sozinha de fato, como sempre. Dessa vez ela vem comigo. Vem sim. Eu não vou lhe dar nenhuma alternativa mesmo. (Maria João)


Volta ao capítulo anterior
Vai para o sumário
Vai para o próximo capítulo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s