12 – A verdade não tem lugar

“O que eu estou falando é o que sei: eu não sei… Comigo, pelo menos, não falava direito há meses.” O policial não parecia muito atento ao que Adriano dizia e limitava-se a apertar e desapertar o botão do gravador. “E quando foi a última vez em que estiveram juntos?”, interrogou. “Na última quinta-feira, aqui na escola”, disse-lhe. Adriano respondia sempre olhando o inspetor nos olhos, parecia na verdade até ser ele a investigá-lo. O que ele queria era saber o quanto aquele homem seria confiável, antes de dizer qualquer coisa importante.

O diretor da escola acompanhava a conversa e até tentou explicar que Antônio era um tipo de aluno especial, que ele tinha uma característica ímpar: a memória prodigiosa e um desempenho acima da média, algo que era incomum na escola. Mas o investigador estava interessado era no que Adriano tinha a dizer sobre o amigo e logo ele percebeu que o menino de óculos pesados e cabelo encaracolado não falaria mais do que o necessário e que, talvez, soubesse bem mais do que aparentava saber. Só outro moleque metido a besta, era já sua conclusão, mas não poderia, pelo menos por enquanto, desprezar sua ajuda. “Você pode ir. Mas eu posso voltar a procurá-lo, entendeu? Vê se lembra de algo mais e qualquer coisa liga pra esse número aqui”, falou e lhe alcançou um cartão pessoal com a ponta dos dedos amarelados do vício de fumar.

O desgraçado se mete em encrenca e eu é que tenho que dar explicações. Novidade nenhuma. Sempre foi assim mesmo... Agora todos vão querer saber o que eu mesmo sei muito pouco, praticamente nada. E Marcela é óbvio que vai ser a primeira de todos… (Adriano)

De longe, enquanto o diretor não parava de lhe endereçar perguntas, o policial ficou observando pela janela o garoto dirigir-se ao pátio e o assédio dos colegas em torno dele. Lembrou-se, de repente, da noite passada, do condomínio onde havia encontrado o seu fornecedor e viu como se descortinada a diferença abissal entre aquele mundo de lá, no qual ele podia exercer à vontade sua autoridade e este, onde precisava andar ao tato, cheio de dedos. Imaginou-se revistando um a um aqueles meninos em sua maioria crescidos presos e fechados em apartamentos e automóveis e sabia que, se o fizesse, cedo ou tarde acabaria encontrando também por ali vestígios muito significativos ou mais que isso, até. Sua autoridade, porém, estava limitada pelo mandado judicial, justamente o papel que o diretor da escola observava segurando nas mãos levemente trêmulas: um velhote calvo e inseguro que assinou o documento com a mão esquerda. Aquele papel dava-lhe passe-livre na escola e ele já começava a pensar quando traria consigo o Magrelo, seu perito assistente. Ele inspecionaria a sala multimídia em detalhes, já que era só no que ele poderia contribuir mesmo, e lá certamente descobriria algo, era no que ele acreditava. Alguma o garoto devia ter aprontado lá. Ele não teria perdido a oportunidade de exibir entre os colegas o que sabia fazer, teria?

Depois, conversou ainda um pouco mais com o diretor, até não terem mais o que dizer. “É tudo o que sei sobre esse aluno, o Antônio…”, confirmou o diretor da escola diante das perguntas que o inspetor de polícia lhe fazia. “E os pais dele, como estão? Já estão sabendo?”, o homem gorducho perguntou ao policial que, da porta, virou-se apenas parcialmente. “Sabem, mas não têm ideia do que fazer…”

“O que ele queria? O que vocês acham? Me dar parabéns? Queria era saber do Antônio, claro! Mas eu não sei de nada e não sou um apêndice dele. Nem dele e nem de ninguém.” Como dizer a esses chatos que sou amigo dele e só por isso eu vou ficar quieto? Não sei... Melhor nem tentar. “Ah, vão incomodar outro, tá? Perguntem lá pro diretor. O Afonsinho é quem pode aplacar a curiosidade de vocês.” (Adriano)

Aí está o som da sirene. Na Escola Santa Luzia ainda usam das antigas sirenes para chamar os alunos de volta à sala após recreio, entre os períodos de aula e na entrada e saída também.


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