11 – Fora daqui

Cedo ou tarde a verdade surge e traga a ilusão como uma ilha num maremoto. Estou esperando pelo maremoto e, enquanto isso, meus ossos tremem por dentro, decantando uma espécie de angústia silenciosa que vai percorrendo meu corpo. Um pavor que é como se fosse meu próprio sangue. Não quero mais olhar pra dentro de casa e também não posso arredar o pé daqui. Esse dia que está nascendo, meu Deus, o que vai ser dele? (José Francisco)

José Francisco não conseguia sentar, não conseguia deitar, não conseguia parar. Manter-se em movimento dava-lhe a sensação de estar acontecendo algo ou, pelo menos, de que algo do nada pudesse vir a acontecer. Por um tempo mexeu nas coisas de Antônio buscando pistas remotas, depois mexeu nos jornais, ligou o rádio e então desistiu. Olhou os livros na prateleira, inclusive o seu próprio ali entre os outros volumes, e parecia esperar que algum deles, ou algum daqueles autores, em carne viva, pudesse saltar da lombada das brochuras e viesse compartilhar algum tipo de consternação; piedade que fosse já serviria. Porém os livros são apenas coisas quando longe dos olhos e das ideias. Sem querer, acabou virando sobre a mesa a xícara de café, com o cotovelo, e sem ação ficou olhando o líquido aos poucos tomar conta e escurecer o tecido branco de losangos vermelhos. Um maremoto sem vítimas, bem diferente do que estava vivendo e que começava a varrer do seu espírito a serenidade habitual e também qualquer esperança.

Preciso esperar pelo pior, mas o pior de tudo é o próprio esperar, que é torturante. Preciso ter certeza de que ele está vivo em algum lugar, mas como vou saber? A vida é previsível na minha idade, não na dele. Antônio nunca fugiu de casa, nunca se perdeu de nossa vista, nunca nos deixou nem esperando. Que tipo de surpresa é essa agora? E você... Você parece tão triste e eu não tenho ao menos uma palavra em minha boca pra lhe dizer. E você também não quer minhas lágrimas. Não quer nem vê-las. Na verdade, nem acredita na existência delas. É seu direito, mas eu não posso resolver isso. Está além de mim, parece até que tudo sempre esteve. Mas espera! A polícia vai dar um jeito nisso. Agora, através dos computadores, não se consegue tudo? Lembra do que o inspetor disse? Se há algo, se tiver alguma trilha, eles darão um jeito de descobrir. Veja, não me olhe assim… Estou acabado, inerte, mas não seja só o meu espelho. Seja melhor que eu como sempre você foi... (José Francisco)

“O que você quer aí parado?!…”, disse com muita calma a voz de Vitória ao encontrá-lo parado encostado junto ao marco da porta do quarto. Ela tentava concentrar-se no seu telefone, em algo ali, e não lhe ocorria pedir ajuda ao marido. Um inútil com as coisas práticas da vida é o que ele sempre foi.


Volta ao capítulo anterior
Vai para o sumário
Vai para o próximo capítulo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s