10 – Undelivered mail

Enquanto atravessamos o mar de gente, Blinker anda tão rápido que quase nunca consigo estar ao seu lado. Pra piorar, fica falando sem olhar em minha direção. Do que ele diz, entendo apenas algo como “Prepare-se. Eu tenho certeza de que ela vai surpreender você.” Suas costas curvadas denunciavam muitas horas na mesma posição e nenhuma atividade física. Será que meu destino é ficar corcunda assim também? (Antônio)

No fundo de um vão do Shopping, uma porta de saída apenas encostada permitia antever-se a chegada do escuro da noite e o céu comçando a estrelar-se. Foi por ali que os dois saíram e deram num estacionamento aberto no qual algumas poucas pessoas conversavam, enquanto a porta aberta de uma van estacionada os aguardava. Antônio queria saber se ela estaria mesmo lá dentro porque, para ele, sua imagem era como seu codinome: uma divindade, e ela mesma alguém intocável e inatingível.

Para ele, às vezes parecia que nunca conheceria Sechat em pessoa. Blinker o deteve logo que saíram pela porta e disse-lhe, virando-se dessa vez para olhar bem em seus olhos: “Não tenha medo, ela sabe quem você é e o que conseguiu fazer pra chegar aqui.” Ele o escutava, mas estava ainda mais interessado em seguir adiante de uma vez. “Claro, não se preocupe…”, respondeu. Blinker ainda impedia a sua passagem e advertiu uma última vez: “Só lhe peço que não tire conclusões precipitadas. E sobre coisa nenhuma…”

Antônio impacientava-se com a conversa e procurava enxergar através dos vidros da van, sobre os ombros do outro. “Vamos?”, perguntou. Blinker então lhe deu as costas e saiu andando em sua frente. Sem olhar para trás, ainda falou: “E não esquece… Ela é Sechat…” O coração acelerado quase impedia que ele seguisse os passos de Blinker e sumisse também por trás da porta da van, fechada aparentemente sem que lhe tivessem encostado um dedo sequer.

Aqui dentro há um grande silêncio e assim é que também nós entramos e permanecemos: quietos como dois monolitos. Ela está dormindo? Eu gostaria de perguntar, mas não me atrevo sequer a cochichar. Não. Ela apenas está com o rosto voltado para a janela, sentada em uma cadeira de rodas, mas não posso ver nem suas mãos e nem seu rosto. Fico sem saber a resposta daquela pergunta apenas mentalmente esboçada até que ouço uma voz sintetizada, em volume idêntico ao de uma voz humana: “Venha até aqui, Noobie... Eu quero enxergar você...” Sim, sou eu mesmo esse “Noobie”. (Antônio)

Blinker observou Antônio levantar-se de onde estavam e aproveitava para confirmar se tudo estava bem com os equipamentos que levavam em suas mochilas. Se alguém reparasse, ele pareceria satisfeito e orgulhoso por tê-lo encontrado, afinal até mesmo Sechat estava desistindo da busca uma vez que Antônio sempre conseguia esconder-se e apagar completamente seus vestígios. No entanto, a intuição dela dizia para não desistirem. É o que ela dizia sempre para explicar sua persistência. Convencê-lo de que Blinker era seu amigo de verdade e alguém confiável não era algo que pudessem fazer acontecer em Morphopolis, por isso ele teve de mostrar-se a Antônio na vida real. Além da memória prodigiosa, Antônio era também prodigiosamente desconfiado.

"Você deve pensar como alguém como eu pode estar fazendo isso. Mas não deve pensar assim nem ficar fazendo a si mesmo essa pergunta. A pergunta que deve fazer, não se esqueça disso, é: por que estamos fazendo isso? Eu também gostaria de saber como encontrou a trilha de Blinker e o que ele fez para você ter finalmente confiado nele. Você pode me contar isso, depois? Nessa hora eu normalmente estou dormindo, estou muito cansada, meus músculos me sacrificam. Na verdade, só estava esperando por que você aparecesse. Eu pensava que fosse outra pessoa, alguém um pouco mais velho... Daqui a pouco poderemos conectar e fazer a última simulação. Por enquanto, fique com Blinker e descanse um pouco. Eu tenho uma enorme surpresa esperando você.” (Sechat)

Ele se afastou um pouco boquiaberto, quase caminhando de costas. Sentou-se ao lado de Blinker e, de dentro de uma sacola que estava junto aos pés da poltrona, retirou e abriu a tela de um pequeno dispositivo pouco maior que um telefone, como um tablet. Ele não conseguia tirar o branco dos olhos de Sechat da mente, mas ainda assim conseguiu acessar a sua caixa de mensagens. Pensava que Adriano precisava saber daquilo, que ele havia finalmente conseguido estar diante de Sechat em pessoa. Será que ele teria recebido a última mensagem que lhe enviara? Ou a mãe, a quem também enviara cópia da chave de Morphopolis? Tinha poucas esperança nisso porque a mensagem que pulava em sua tela apenas dizia: “I’m sorry to have to inform you that your message could not be delivered to one or more recipients. It’s attached below. For further assistance, please send message to <postmaster>. If you do so, please include this problem report. You can delete your own text from the attached returned message. Mailbox does not exist.”

Não seja idiota, Antônio, Noobie ou sei lá o quê... Claro que nenhuma mensagem com esse tipo de informação poderia sair daqui. (Antônio)


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