09 – Maria João

Que surpresa, as flores continuam precisando de mim... Mas o que tenho de fazer é parar de pensar nisso. Estou sem vontade, só isso, eu sei. (Maria João)

Maria João não queria ter muita coragem para levantar da cama nos últimos tempos e não precisava de subterfúgios para admitir isso. Quem a tirava de lá, às vezes, era a filha da vizinha que vinha tomar lições de Matemática e Ciências e aproveitava para levá-la ao pátio dos fundos onde brotava o seu roseiral. A menina adorava ajudá-la a podar os galhos espinhosos e desalinhados. De tarde, ela tomava chá em sua cadeira de balanço e esperava a hora da novela com os gatos que passeavam pela casa enrolando-se nos pés. Ela ficou assim, decepcionada da vida, ao saber que o pastor da nova igreja desviara o dinheiro dos pobres e isso ela não podia perdoar, mas o pastor roubou bem mais que isso. Sem que ele soubesse e nem pelo menos desconfiasse disso, roubou boa parte da sua vontade de viver.

Naquele domingo, tão cedo da manhã, o telefone tocando, quem poderia ser? Engano? Não, não é o açougue, ela já ensaiava a resposta. O jeito era checar o telefonema. “Alô?” Do outro lado da linha, a irmã Vitória levou um bom tempo até parar de chorar e se fazer entender. “O Antônio? Sumido? Como isso?”, ela empilhava perguntas aparentemente sem resposta. “E a polícia, já chamaram? Não pode ser…” Seus olhos vasculhavam a casa em busca dos óculos e topavam com o mundo mais ou menos caótico da própria casa e outro que só agora parecia lembrar que existia: o mundo da família de sua irmã mais velha.

“Maria… Eu preciso de você…”, ela escutou a irmã dizer e então pareceu que afundava num fosso, mas, logo a seguir, buscava formas de voltar à tona. “É claro, preciso arrumar algumas coisas, mas eu vou ficar com você, não se preocupe… Me espera que eu já vou! Já vou! Já estou indo…”

Depois de desligar o telefone, andou por todos os lados como barata tonta. Percebendo-se em plena escuridão, foi até a janela que dava para o pequeno jardim que havia na parte da frente de pequena casa e abriu com dificuldade a cortina e a persiana, que a cada dia parecia pesar mais. Naquele instante, verdadeiras toneladas. Ao abri-la, ficou por um tempo olhando a rua praticamente deserta e pensando no que, em quando e em como iria fazer aquilo que prometera à irmã. O cão do vizinho começou a latir e ela enxergou através da janela, do outro lado da ruela, o rosto da sua aluna Alice, filha da vizinha. Embora a criança abanasse incessantemente, custou a perceber que era mesmo ela. Parecia estar num transe, enxergando sem entender o que os olhos registravam. Um ônibus atravessou a rua de chão batido levantando uma nuvem de poeira e ela, quando voltou a olhar para a casa do outro lado da rua, não encontrou mais por lá nem sombra da criança.

Preciso dar um jeito nessas coisas. Onde estão meus óculos? Pobre Vitória... Onde terá se enfiado esse menino? Preciso lavar roupas para poder sair de casa com um mínimo de decência. Arrumar esse cabelo, quem sabe? (Maria João)

Olhava-se ao espelho quando percebeu a presença minúscula e discretíssima da criança detrás de si. “Tudo bem?”, a menina perguntou. Mesmo que lhe custasse imensamente esconder o sorriso para a pequena aluna, precisou ser sincera: “Minha querida, vou precisar viajar por uns dias, você me ajuda a dar um jeito nessa bagunça?” Alice apenas assentiu com a cabeça e ficou em silêncio, observando-a, sem tocar em nada, completamente imóvel. Porém não passou muito tempo e precisou indagar novamente: “Pra onde vai? Vai viajar? O que foi que houve?”. Então Maria João fez com que ela sentasse diante de si, numa banqueta, e ante seus olhos atentos e espertos pediu que prometesse cuidar dos seus gatinhos e que, mais cedo do que ela pudesse imaginar, já estaria de volta. Então a menina voltou a sorrir. “Posso levar o Branquinho pra casa?”

“Pode sim!” Mas... E depois? Como ele vai querer voltar?  (Maria João)

A menina sorriu e saiu correndo em direção ao pátio.


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