08 – Hora extra

O que andam fazendo nessa delegacia pra desconfiarem de um menino que só anda metido com coisa de criança? Eu duvido que ele saísse de dentro daquele quarto fedido. Tá faltando o que fazer. Só pode ser isso. Chega disso... Amanhã eu continuo. (O inspetor Everaldo)

A cidade à noite é quase uma transfiguração. Os lugares são os mesmos: os becos, as ruas e avenidas, mas os habitantes são outros. Nas praças já não há mais crianças nem suas brincadeiras ruidosas. Os carros já não obedecem ao sinal, os motoristas não obedecem aos carros. E o sinal continuava apenas fazendo sua obrigatória e permanente continência de sombra e luz. Aos sábados, as sirenes varavam o silêncio levando e trazendo gente, em todas as condições possíveis, porque o Pronto Socorro ficava ali perto do edifício onde moravam.

Com toda a calma do mundo, o inspetor andou por todo o bairro, estudando cada acesso, cada buraco. Mas o lugar era pacato e tinha pouca gente na rua; um autêntico bairro de família. Mesmo assim, todo o bairro é uma fronteira entre mundos que se cruzam, interpenetram. Até Antônio, nos seus catorze anos, já tinha passado algumas vezes para o lado de lá da praça, onde a rua na qual morava trocava de nome e um condomínio parecendo um elefante cinza abrigava trabalhadores pobres, gente desempregada, viciados e até pequenos traficantes.

O inspetor sabia que não encontraria nada de mais por ali e, na verdade, não era isso mesmo o que ele queria. Ao perceber alguém vindo em sua direção, não pensou duas vezes: parou o carro e o prensou na parede, porque sabia muito bem o que ele devia estar carregando nos bolsos. E o caso do filho do professor estava mesmo era dando um nó naquela sua cabeça (oca, conforme imaginava o Magrelo, seu parceiro de investigação). O inspetor Everaldo pensava que estava precisando de alguma ajuda para pensar melhor e resolveu dar um jeito nisso, do modo como sabia. No momento, era o maior problema que ele tinha e precisava a qualquer custo esvaziar a cabeça.

Até na cidade dos sonhos todo mundo uma hora vai dormir. Aqui, hoje não acontece mais nada. (O Magrelo)


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