07 – Uma pedra de gelo

Esperar é a pior estratégia, sempre. Mesmo que seja esperar pelo pior. As feras que atacam não têm sempre a vantagem da surpresa? Nunca pude esperar por nada na vida e essa promete ser uma noite mais longa que todas as outras. Nem quando ele nasceu, nem quando estive no Exército, nem quando esperava pela morte de minha mãe sem mais nenhuma esperança que ela sobrevivesse, encostado nas paredes frias do hospital em ruínas daquele fim de mundo. Esperar sempre é só o que resta a fazer quando não há mais nada a ser feito, mas então o tempo se dilata como um balão se preenche de ar. (José Francisco)

A verdade é que eles não esperavam mais dormir direito naquela noite. O café inicialmente preparado para oferecer aos policiais seria reforçado e também seu combustível. Ela bem que tentou desviar o olhar do marido, mas, muito antes do que quisesse, bateu de frente com o vermelho em seus olhos e a profundidade de suas olheiras. Por adivinhar nele uma suposta culpa partilhada, mantiveram silêncio, talvez em respeito ao próprio desespero. Enquanto ela tentava inutilmente evitar entrar a todo o momento no quarto de Antônio, vacilando diante da porta, o pai preferia perambular pela sala. Às vezes, ele entrava para ver o que acontecia com o computador que pediram que fosse mantido ligado e olhava pela janela da sala em direção à rua a todo o instante. Pensava em pistas que pudesse não ter entendido, em gestos do filho agora revelados simbólicos, em lembranças que a cada instante pareciam ainda mais nebulosas, adentrando uma neblina que povoou a casa e fez com que o pouco diálogo que mantiveram soasse como um eco a perder-se na longitude de um vale. Apesar disso, estavam atentos a cada ruído. A cada possibilidade do menor ruído que fosse.

Exausto, lá pelas três da manhã, José Francisco estava atirado no sofá da sala, mais dormindo que acordado. De repente, sentiu-se estremecido por um som remoto, como se pelo rádio de um apartamento vizinho. Vitória estava no quarto do casal cochilando encostada à cabeceira da cama, ainda vestida. Ele levantou-se e, caminhando pé ante pé, percebeu que o som vinha do quarto do filho, escoando pelas frestas da porta entreaberta e ganhando seus ouvidos como um fantasma sussurrante. Ele se aproximou lentamente e o que conseguia ouvir ia ficando cada vez mais nítido.

Logo ele reconheceu um tipo de padrão no som, mas estava paralisado. Parecia que tinha engolido uma pedra de gelo no jantar e o frio a mantinha como um iceberg no estômago, fazendo-o tremer por inteiro supondo que o filho houvesse voltado para casa sem que nenhum deles tivesse percebido. José, enfim, atravessou a fronteira do medo e empurrou para trás a porta do quarto de Antônio, antevendo na tela do computador um filme ou uma espécie de animação tocando em uma pequena janela. Era um tipo de música eletrônica, com uma batida ininterrupta e uma voz mecatrônica feminina fazendo vocalises. O filho não poderia estar escutando aquilo, poderia? Antônio gostava da música erudita que ele mesmo lhe apresentara quando ainda era criança; o barroco e, sobretudo, os românticos. Por isso, para ele aquilo soava tosco demais para o gosto de Antônio ou do que dele supunha conhecer.

José já tinha chamado Vitória para mostrar-lhe o filme quando percebeu que tudo era apenas parte dos testes que a polícia fazia à distância e que muitas outras janelas abririam e fechariam por pelo menos umas duas horas mais na tela do computador. A mãe mal entrou no quarto do filho e deu meia volta conferindo seu telefone logo após José explicar-lhe o que acontecia: “Não sei o que deu nesses filhos da puta pra fazerem isso dentro da casa dos outros. São os testes que eles disseram que fariam. Só isso… Desculpe pelo susto…” Então o computador desligou uma vez mais, e mais outra vez ligou e dali a pouco desligou e não ligou mais. O dia já clareava e ele então resolveu revirar o quarto inteiro de Antônio em busca de algo que nem imaginava o que poderia ser e que era quase certo que nem existisse mesmo, mas ainda assim ele foi adiante.

Já que isso não serve nem pra receber mensagens suas, vou desligar isso e tentar dormir. Como você se anima a fazer isso comigo, seu atrevido? Mas por que fazer isso com sua pobre mãe? (Vitória)

Somente uma pessoa estúpida como eu imaginaria encontrar alguma pista por aqui com maior eficiência do que a polícia especializada, que até peritos tem. Acontece que ele não é filho deles, é meu. (José Francisco)


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