06 – Sechat quer conhecer você

Sem notícias pra ninguém, sem telefones, nada, essa era a condição. Eu deveria saber o que era preciso fazer, afinal, é pra isso mesmo que serviam as simulações: aprender. Pelo cookie enviado pela mensagem, eu sei que ele deve estar me observando enquanto gasto meus últimos trocados desembarcando na Normandia para aniquilar os nazis fdps. Será aquele ali sentado com óculos de fundo de garrafa? Ou aquela no fundo da sala, que até parece ser uma gêmea perdida da Marcela, do oitavo ano? Ou será ela mesma? Não, não pode ser... Interrompendo os estampidos da plataforma do fps da área de jogos do Shopping, Blinker me agarrou pelo braço e gritou em meu ouvido: “Vem comigo...! Ela quer conhecer você.” (Antônio)

Quando era quase meia-noite, a mãe voltou a ficar nervosa. Antônio saía à noite às vezes com os amigos para jogar videogame, normalmente na casa do Adriano, mas jamais deixava o telefone desligado. Com o controle remoto em uma das mãos, ela desligou a tevê e, ao puxar a coberta sobre os pés do marido que parecia cochilar, ele voltou a acordar num sobressalto. Depois, foi até o quarto do filho como querendo encontrar uma pista de seu paradeiro, mas só achou algumas roupas esparramadas remanescentes e o computador, de modo incomum, desligado. Seria alguma namorada que ele tentava esconder? Uma festa de última hora? Mas ele nem costumava ir a festas… Não sabia o que pensar, mas o certo é que teria telefonado. Ele poderia ser descuidado com a aparência (nunca com os estudos), porém sempre mantivera uma boa relação com ela. Seu problema era o pai, era no que ela acreditava. O pai era o problema dela também.

Quando ela decidiu voltar a estudar, depois de muitos anos, não tivera o apoio de quase ninguém, somente da irmã mais jovem. Quase dez anos mais nova, elas estudavam juntas, por vezes varando a noite. Também foi a irmã quem lhe ajudou a decidir casar-se com José Francisco, o professor de português que insistiu tanto em que ela fosse embora com ele, quando ele conseguiu um emprego na capital. Depois o contato entre elas foi ficando mais raro até que não se encontrassem quase nunca, mas ainda era a única pessoa em quem confiava. Aquela não era uma boa hora para telefonar, além do mais José ouviria a conversa, mas no outro dia precisaria lhe falar, apesar de saber o susto que isso causaria em Maria José.

“Espere um pouco...” eu disse a Blinker, soltando sua mão. “Antes, preciso ver bem a sua cara...", disse-lhe. Ele parou bem diante de mim e então pareceu ele mesmo estar me examinando, e não o contrário. Mas ele era um pouco como em Morphopolis, ao contrário de todo mundo, até de mim mesmo. Usava uma franja comprida e tinha uma expressão nem um pouco bisonha, como o Adriano, mas confiável. Não à toa ele preferia sempre ser o juiz das competições a participar. Eu nunca entendi que graça poderia haver nisso, mas ele gostava. "Que foi? Não pareço com quem você imaginava?", indagou-me. "Não é isso... Nem eu sei se pareço com quem eu sou...", disse-lhe. "Mas isso é com todo mundo. Você imagina qual a aparência que tem, por exemplo, Sechat? Nem tenta, cara.. Isso sempre será uma surpresa. E é melhor mesmo que seja assim." Sechat eu realmente não tenho ideia de como seja, não sei nem se é alguém de verdade, real, de carne e osso. Antes de sair, digo para que me espere um pouco que vou ao banheiro e depois poderemos ir. Na verdade, vou pensando que talvez seja minha última chance de voltar atrás e desistir de tudo. Com a bateria do celular quase acabando, escrevo uma última mensagem antes de juntar-me novamente a Blinker e sairmos dali. Mas enviar pra quem?(Antônio)


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