04 – Vice-versa

O Adriano sempre achou que saberia sempre tudo de mim... Claro que ainda é meu melhor amigo, isso desde aquela promessa secreta de crianças, mas continua exatamente o mesmo, parece que não cresce nunca. Basta ver a cara dele tentando adivinhar meus planos... Não consegue ter muita ideia de nada e pensava que tudo era besteira e todos personagens do jogo, invenções de alguém, talvez do computador. Mas sei que pode estar preocupado comigo... Ele, afinal, é o irmão que não tive. (Antônio)

A julgar pelo tamanho da escola, ali estão quase quinhentos alunos. Em sua maior parte, são alunos de classe média. Boa parte são bolsistas; as bolsas são oferecidas há muito tempo pelas escolas e instituições religiosas. A igreja ao lado é onde se rezam as missas e o acesso pelo pátio da escola só é mantido para que o padre atravesse de um lugar a outro. No passado, ele se postava no alto da escadaria, em um altar improvisado, e rezava a missa para os alunos perfilados dali mesmo. Hoje, dificilmente alguém se atreveria. Os alunos não têm sequer ideia de que isso um dia possa ter acontecido, só mesmo pelas fotografias penduradas ao longo do saguão se pode saber. Tudo mudou muito do tempo em que José Francisco começou a dar aulas ali. Isso ele sempre dizia quando precisava ir até lá com Antônio, porque agora o menino ia à escola atravessando por conta própria os quatro quarteirões que separavam o edifício onde moravam e o prédio de aparência secular.

Antônio também está ali graças a uma dessas bolsas. O pai deu aulas de português por quase vinte anos. Sua aposentadoria, hoje, dificilmente pagaria a mensalidade da escola e permitiria que chegassem ao fim do mês com decência. Por terem conhecimento disso e porque ele continuava amigo dos padres e talvez por alguma gratidão, a congregação resolveu ajudar com a bolsa de estudos. De outro modo, a alternativa seria frequentar a escola pública que ficava no centro da cidade, onde estudavam muitos dos seus vizinhos e amigos de infância. De fato, muitos estavam lá, mas não Adriano, cujo pai sacrificava o último dos tostões obtidos na padaria da família para que fosse também à escola dos padres. Adriano e Antônio cresceram juntos, tinham a mesma idade e tudo o que fizeram pela primeira vez tinham feito juntos. Desde o primeiro tombo de bicicleta de Adriano, Antônio estava lá e, assim por diante, juntos em tudo.

Depois que o inspetor andou vasculhando o prédio, uma grande celeuma foi feita. Os outros pais não gostaram de saber que a polícia andou na escola e muitos, em pânico, foram tirar satisfações dos professores e funcionários. Tinha sido um aluno, pra variar um dos bolsistas, o causador da visita; devia estar metido com drogas ou outra encrenca pior, foi o que muitos pensaram. Outros nem pensaram nada e ameaçaram tirar os filhos de lá e levá-los a um lugar mais seguro. Quando o diretor, entretanto, levou Adriano à sala onde o policial o esperava, a própria sala da direção, todos os alunos que estavam no pátio e nas janelas entenderam que alguma coisa tinha acontecido a Antônio.


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