03 – Hora de correr

Gente destruída pela droga ou dentro do crime sempre foi minha especialidade. Nos últimos tempos é que inventaram esse departamento de crimes eletrônicos e minha chance de abandonar o mundo dos viciados e traficantes, onde queriam que eu apodrecesse até o fim dos meus dias. O magrelo esse que escalaram pra me ajudar pensa que tudo está dentro dos computadores, telefones e geringonças, mas eu resolvo as coisas de outro jeito: eu tenho paciência e observação. Passei muito tempo fazendo o trabalho sujo e encerando o chão dos belezas pra que um idiota qualquer ou um delegado me dissesse o que fazer ou o que pensar. Enquanto ele vai revirar as pistas no equipamento do menino, por outro lado eu tomo café e observo a cena. Essa mulher pensa que é quem, pra não me olhar ou responder? (Inspetor Everaldo)

A mãe, Vitória, é assim mesmo, é o que o pai disse ao policial quando este resolveu indagar. Estava num tipo de choque, um transe, ou foi sempre assim e ele não quer assumir e então inventou isso. A casa aparentava uma bagunça arrumada às pressas. Apenas o quarto de Antônio estava mais ou menos intacto e lá dentro o ajudante do inspetor tentava ligar o computador. Para apagar a senha de acesso, ele disse, é preciso reconfigurar a memória start do equipamento, um pequeno dispositivo controlado mecanicamente e que, acionado, voltaria a permitir o acesso à máquina. Por isso ele retirou a tampa do gabinete e ficou mexendo lá dentro, entre os circuitos e placas.

Quando saiu, Antônio bateu a porta porque as dobradiças não aceitavam mais outra forma de fechar a casa. Alguém teria de ter colocado um lubrificante, mas não tinham de mais nenhum tipo que pudessem usar e o pai sempre se esquecia de comprar um novo quando saía a caminhar pelo bairro. O apartamento tinha consertos pendentes de muitos anos. Um vidro quebrado nos fundos, azulejos estourados na cozinha e outras coisas que antes o pai gostava de cuidar ele mesmo e com as quais Antônio podia ajudar carregando coisas e tentando brincar de usar as ferramentas dele, mas agora nada disso fazia a menor diferença.

Eles pensam que sou o quê? Não cuidam da própria vida e querem cuidar da minha? Não mesmo! Faço o que me dizem em troca de não me perseguirem, de me deixarem em paz com a minha vida. E além disso Blinker já deve estar me esperando. Vou passar na padaria e levar alguma coisa pra comer. Por ter passado no corredor com os fones nos ouvidos quase cheguei a não escutá-la resmungando: "Pra onde vai a essa hora??" O ônibus vem vindo. Hora de correr. (Antônio)


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