40 – Depois da chuva

Mesmo depois que a chuva acalmou um pouco mais, quase parando, Adriano e Marcela continuaram abrigados sob a marquise e ficaram ali, um tanto encharcados, olhando a chuva cair, mais ou menos abraçados. “Acho que você tem razão… Ele sabe o que está fazendo. E, se não sabe, deveria…”, ele disse-lhe depois de ter escutado o que ela acabara de dizer. Sem os óculos, olhando-a de muito perto, parecia entender melhor o que ela lhe dizia.

Em frente ao prédio, a van com Antônio e Blinker encostou logo atrás do carro preto que há pouco o Magrelo estacionara ali, quase em frente à entrada do edifício de poucos andares e pintura meio desbotada no qual a família de Antônio vivia. José Francisco e o Magrelo conversavam sem prestar atenção em nada, no degrau da porta para a rua, quando perceberam que Antônio e Blinker desciam através da porta deslizante da van. A expressão do Magrelo ao ver Blinker ali era de espanto real, como se de alguém que tivesse sido flagrado por um superior e talvez fosse isso mesmo o que estivesse acontecendo.

Do outro lado da rua, Vitória e Maria João pareciam finalmente ter percebido a movimentação e decidiram atravessá-la para juntar-se a eles. Observando Blinker e Antônio, o Magrelo via que logo todos estariam juntos ali e pensou que isso, pelo menos, pouparia-o do trabalho de repetir mais de uma vez o que tinha para dizer – ou inventar.

Um sol escasso surgia do lado da praça em frente à escola onde Antônio estudava. Dali se podia ver a copa das árvores mais altas sobressaindo-se entre as pequenas casas daquele lado do bairro. O Magrelo reunia e reorganizava mentalmente as palavras para falar, enquanto Blinker continuava teclando em seu telefone e a mãe e a tia de Antônio tentavam abraçá-lo, como num triângulo em movimento do qual ele tentava esquivar-se.

O Magrelo mesmo que começou a explicar-lhes: “O seu filho, vocês não devem imaginar o que ele tenha feito, mas ele ajudou a cometer um crime… Na verdade, com o seu crime ele permitiu que um crime maior acontecesse. Talvez um crime internacional de desvio e transmissão ilegal de energia. Ele não fez nada sozinho, mas definitivamente sem ele nada teria acontecido.” Ouvindo a explicação, José Francisco coçava sem parar a cabeça com as mãos trêmulas e olhava para Antônio, como se desacreditando na realidade daquelas palavras. Blinker parecia achar tudo muito normal e Antônio não tirava os olhos dele, sem prestar muita atenção ao que o Magrelo dizia.

“Nós tentamos interceptá-lo e impedi-lo, mas ele sempre conseguiu escapar. Depois dela, a deficiente, ele é o melhor que já vimos, mas agora está numa enrascada. E das grandes…”, ele ainda disse.

Ouvindo aquilo, Vitória envolveu-se nos braços do filho, amparada por Maria João. “Meu filho, meu filho…”, era só o que ela conseguia murmurar entre as lágrimas. Antônio ergueu olhos e procurou olhar em volta, mas não havia quase ninguém na rua. Ele olhou para a padaria e lá estava o seu Giovani, em pé na porta, mas sem a companhia do filho, que era quem ele procurava encontrar.

Onde se enfiou o Adriano, numa hora dessas? (Antônio)

Após um breve período de silêncio, com a licença do Magrelo, Blinker mostrou-lhes que também tinha uma credencial da polícia e começou a dizer: “Há outro modo pelo qual ele pode pagar por seu erro, que é se alguém assumir seus atos… Alguém maior de idade…” E continuou: “E então ele poderia prestar sua pena estudando na nossa academia. Ao final ele se tornaria um perito e até poderia trabalhar conosco. Se ele quiser e se vocês permitirem, claro… Entretanto ele precisará morar em São Paulo, no alojamento da empresa. Ele não irá sozinho e vocês poderão visitá-lo sempre que quiserem, nos finais de semana, além de ter um canal de comunicação permanente com ele.”

Apontando com os olhos para a direção de José Francisco, continuou: “Ele poderá vir também, mas apenas um mês a cada ano…” Blinker observava a reação surpresa dos pais e também um sorriso insinuar-se nos lábios de Antônio, que só ele e o Magrelo naquele momento perceberam. De um modo oculto, Blinker havia ligado a câmera do seu telefone para que, à distância, Sechat pudesse assistir a conversa.

Vamos ver então, Noobie, se você tem coragem de me acompanhar na vida real. Se é isso que você quer mesmo fazer da sua vida... (Sechat)

O que eles não sabem nem precisam saber é que ela virá também, Sechat, a menina da cadeira de rodas. Na verdade, nem sabiam direito da sua existência. O pai dela aceitara previamente que ela também fosse morar em outra cidade, apesar das suas dificuldades motoras e a única ressalva que impôs é que ela tivesse uma ajuda especial para cuidar dos exercícios diários e pudesse continuar trabalhando para a empresa, naqueles sistemas que dependiam do seu controle.

“Se eu fosse vocês, deixaria que ele fizesse isso. Caso contrário, Antônio terá de viver até os dezoito anos com vigilância diária e dormindo nos fins de semana em algumas das unidades de menores de idade da polícia do município”, Blinker completou.

Noobie, Noobie… O que eu não faria por amigos como vocês? (Blinker)

O pai estava aturdido e se apoiava no marco da porta de ferro, mas conseguiu dizer o que tinha em mente. “Se ele quiser ir, eu não me oponho…” Depois de respirar fundo, continuou: “Mas eu preciso ouvir isso da boca dele…” Todos viraram-se em direção a Antônio que, depois de retirar os cabelos dos olhos e virar-se em direção à mãe que ainda o abraçava, conseguiu falar, em um balbucio: “Eu vou, mãe. Eu quero ir…”

Ela, que já estava chorando começou a soluçar, sem entender direito o que estava acontecendo, mas intuía que assim ele estaria melhor, que era mesmo o que ele queria, ainda que em outra espécie de vida, ainda que longe dela e do pai ou, talvez, exatamente por isso. Entretanto, como sabia interpretar como ninguém a súplica no olhar do filho, conseguiu acalmar-se. Tudo era muito estranho para a tia, mas ela entendeu que Antônio escondia algo e parecia subitamente aliviado com a resolução. Só o que ela conseguiu dizer é que, se fosse preciso, a irmã moraria com ela, “até que tudo se resolvesse”. No fundo, era o que ela mais queria: que a irmã fosse de uma vez por todas morar com ela.

“E as suas roupas, meu filho? E suas coisas?” (Vitória)

“Eu tenho tudo o que preciso comigo, mãe... Vai ser melhor assim, acredita em mim... Pelo menos uma vez na vida, acreditem em mim... Vocês os dois...”(Antônio)

Por um momento parecia que Antônio abraçaria o pai, mas apenas encarou-o de frente, a uma distância prudente. Ele sabia que o pai entendia que a educação da escola não o levaria a lugar nenhum e que ele não era um aluno igual aos outros. No fundo, não esperava por aquele gesto dele ou sua compreensão, mas também não sabia como agradecê-lo. Ou até sabia, porém antes precisava partir e que o tempo passasse um pouco mais para que pudessem voltar a conversar. Ele então lhe deu as costas e foi entrando novamente na van, com Blinker ainda seguindo-o. O Magrelo enxugou a testa molhada pelas gotas da garoa e explicou que o pai precisava ir com ele até a delegacia, para assinar um termo de compromisso e combinar o seu regime de colaboração.

A van partiu e desta vez fez bem devagar a curva da esquina do posto de gasolina, sumindo em seguida. Os que haviam ficado subiram juntos as escadas, mas em completo silêncio. Lá no alto, a porta fechada guardava uma casa cada vez mais vazia. A fadiga que José Francisco estava sentindo antes desaparecera assim como, sem que percebesse como, a dor de cabeça se desvanecera das têmporas.

Eu só quero que você trate de fazer melhor do que eu... (José Francisco)

Vitória e Maria João tentariam viajar no mesmo dia, apesar do cansaço, isso elas decidiram sem precisar falar e, por sua vez, José Francisco ficará sozinho em casa, como parecia sempre ter desejado, com seus livros e os intermináveis torneios de futebol. O filho deles continuara, enquanto isso, crescendo por conta própria, mas agora junto a quem escolheu, ainda que sem nunca ter sabido antes quem eram aquelas pessoas na vida real. Se não quisesse de verdade, poderia ter desistido de Sechat e de tudo, voltando a sua vida de antes, mas essa sua vida de antes estava sendo fechada junto à chave de casa que o pai guardou, talvez para sempre, dentro de um dos livros da estante escolhido ao acaso. A chave que o levaria de verdade ao seu futuro estava esperando-o com Sechat, conforme a mensagem no seu telefone mostrava. E também em tudo o que ela ainda não havia mostrado a ele, mas em seu tempo (longo tempo) mostraria.

Eu acho que sim, Noobie, acho que vamos nos dar bem e que posso esperar ser sua amiga. De verdade... (Sechat)


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