02 – O que eu sei

O que eu sei que possa ajudar numa hora dessas? Quase nada que preste... Sei que os dias às vezes voltam no tempo e nem sempre se encontra justificativa para a vida melhor que a própria vida. Quando eu era criança, lá onde vivíamos, o sol massacrava e escaldava a pele e os dias longos, quase intermináveis, passavam sem propósito. Pareciam pingar de um balde furado, numa água de se acabar. Mas não era interminável como hoje, como agora, como está sendo ficar sem noticia e noção nenhuma de nada. (José Francisco)

Na prateleira da sala não havia muitas coisas. Alguns enfeites, porta-retratos com imagens do filho bebê e de uma viagem remota no litoral. Entre uma coleção pequena de livros, uma brochura artesanal com o seu nome na lombada. Não lhe ocorreu vontade de abrir e rever o livro, mas pegou um que estava ao seu lado, um tanto gasto e desbotado e sentou-se na beira do sofá para folheá-lo sem atenção nenhuma. Ali dentro, uma fotocópia de uma antiga certidão de nascimento marcava a divisão de um capítulo.

Muito mais distante daquele dia, ele havia voltado ao lugar onde nasceu, no interior do estado, para buscar documentos que só foi encontrar na paróquia do lugar, porque era onde se mantinha a guarda dos registros civis mais antigos. Desse modo foi como ele descobriu ser o bisneto de uma mulher índia e de um pai que morrera conhecido apenas pelo posto militar e o sobrenome Ferreira em uma revolta que acabou pelos fins do século XIX, ou em meados da Guerra do Paraguai; o sobrenome tinha sido gravado como uma concessão do tabelião, porque na verdade era um sobrenome outorgado. Sua sonoridade portuguesa era tão falsa quanto a nova certidão com o nome dos ancestrais que passou a portar consigo e com a qual também veio a batizar seu único filho, Antônio, a essa hora dado como desaparecido por ele e pela polícia.

Aquele mesmo nome e homem era eu mesmo e agora o que eu precisava fazer era encontrá-lo. Mas onde é que você foi se enfiar? Bem que eu sabia que nunca poderia ter deixado você se acostumar a passar tantos dias encerrado no quarto, às voltas consigo mesmo e com aquele maldito computador. Por que me confortei com a sua autonomia, sua aparente confiança? Agora, tudo o que imaginava saber sobre você não vale coisa alguma. Preciso confiar em alguém pra conversar e Vitória me ignora silenciosa e solenemente. Por sorte eles chegaram agora e vou poder dividir essa angústia com alguém. “Eles estão chegando”, falei sem obter resposta. Vou descer, pensei. (José Francisco)


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