01 – Num piscar de olhos

Eu não sabia esperar. Queria mesmo ter tempo de desistir ainda, mas o dedo deslizou mais rápido que a vontade. Os cliques são gestos irreversíveis e, depois deles, só o que resta é viver o destino que eles dão. (Antônio)

Quando Antônio saiu, a porta espatifou por tudo um som tremendo e abafado. Deixou quem o observava de cara com a madeira desbotada e as manchas que o tempo vai colocando na pintura das paredes, mas ninguém tentou segurá-lo. “Deixe que se vá!”, foi o que disse a mãe na cadeira angular ao pai, olhando para o outro lado, onde um ruído de tevê anunciava algo como a torcida de um jogo de futebol. Aquele óóóóó que a multidão expele em coro quando um atacante erra o alvo e a bola se perde nas placas publicitárias. Ele se foi mesmo e ninguém mais sabia de seu futuro à exceção de quem, naquele momento, apagava o convite que o levara porta afora, feito no mesmo portal onde a família conferia unida, às vezes, o resultado das loterias e as imagens renovadas dos atores e personagens dos seriados que assistiam e pelos quais ele às vezes disputava a primazia do aparelho com o pai, que sempre queria assistir apenas jogos de futebol. Jogos e mais jogos, fossem de que campeonato ou miserável torneio fossem. O que o salvava nesses dias era o computador com o qual ele consumia horas a fio do seu dia em games, música e outras coisas. Não era tão ruim assim, ele pensava, porque podia fazer isso quase a qualquer hora e também ficava dispensado do convívio da sala de estar do apartamento e do cheiro insuportável do cigarro que o pai não conseguia nunca largar por completo. Às vezes, ele ou a mãe, Vitória, implicavam e reclamavam do que lhes parecia ser um exagero de “tempo jogado fora” ou “um absurdo”, mas bastava que apresentasse o boletim e suas notas excepcionais para encerrar as discussões.

“Eles todos são assim”, resmungou a mãe enquanto começava a juntar do chão as roupas espalhadas no quarto, coisa que ela costumava fazer somente uma vez por semana, nunca mais que isso. “Não prestam pra nada!”, ela complementava o resmungo.

Procurei o lugar inteiro e ninguém que ao menos evocasse Blinker parecia andar por ali. Que estúpido! Por que imaginei que ele viria? É claro que ele queria apenas me conhecer de verdade, saber como eu era, me observar à distância. Agora, só o que me resta a fazer é perambular na livraria, folheando livros que em sua maioria valem mais do que circula de dinheiro na minha mão num ano inteiro, mas daqui a pouco até isso vai me dar sono. Sorte que o cibercafé está vazio e posso ficar um pouco ali. Em Morphopolis, tudo continua na mesma: os mesmos versinhos, as mesmas frases de efeito, vídeos, a sua coleção interminável de fotos esparramadas na grama verde com o felpudo Plug, mas quase nunca o rosto dele mesmo. Será que o dia deve estar assim lá fora? Ensolarado? (Antônio)

A verdade é que nos últimos tempos ninguém via nada de muito estranho ou diferente nele. Nada que denunciasse que qualquer coisa, mesmo que um pouco apenas, pudesse estar acontecendo fora da vida de sempre, a vida de todos os dias. A rotina de escola, os videogames, discussões em casa e os mesmos poucos amigos da rua. Ele não passou, por exemplo, a ler ou declamar a Bíblia ou, isso seria mais estranho ainda, a assistir os jogos que José Francisco, seu pai, empilhava um sobre o outro, nem muito menos tomara qualquer outra atitude estranha. Em relação a ele, na escola, os professores só tinham elogios. Isso sempre tinha sido assim. A facilidade em aprender e a memória prodigiosa trouxeram na mesma medida simpatias e antipatias, além do álibi perfeito, em casa, para que ninguém pegasse muito no seu pé.

“É tudo o que sei sobre o aluno”, recolheu-se o diretor da escola diante das perguntas que o inspetor de polícia foi lá fazer dias depois. “E os pais dele, como estão? Já estão sabendo?”, o homem gorducho perguntou ao policial que, da porta, virou-se apenas parcialmente. “Parece que já, mas não têm ideia do que fazer…”

Vinte e quatro horas tem o dia que, ao mesmo tempo, sabe ser infinito em cada segundo. E as piores ideias voejam pela cabeça. Mais tarde, naquele dia e naquela noite, o pai não assistiu a jogo algum e nem ligou a tevê. Vestiu uma roupa direita, em melhores condições que as usuais, e foi barbear-se para esperar os investigadores que viriam averiguar informações que pudessem levar ao paradeiro de Antônio. “É bom ter uma garrafa de café”, ele disse à mulher que, resolvida a botar para lavar todas as roupas da casa, só conseguia muxoxar palavras que mal se distinguiam. O pai espreitava da janela qualquer movimento na rua e se enganava com um misto de alívio e remorso. A noite se estabelecera definitivamente no que se podia ver do céu entre os edifícios do outro lado da rua quando a viatura estacionou na frente do prédio e ele anunciou, enquanto se dirigia ao andar térreo e à porta de entrada: “Eles estão chegando”. E sumiu escadas abaixo levando a chave da casa cuja posse negara sistematicamente ao filho, mesmo depois de seus catorze anos, convencido de que sempre estivera fazendo o melhor possível, mas isso era apenas o que ele imaginava poder fazer de melhor. Aquilo que estavam passando era, sem dúvida, culpa de uma brincadeira de moleques. Era o que ele tentava dizer à mulher, mas Vitória decidira-se há tempos a não mais ouvi-lo nem levá-lo a sério.


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